A Sala de Conferências do Palácio do Governo foi, esta manhã de 17 de abril, palco de um ato de elevado significado institucional e espiritual para Cabo Verde. O Governo distinguiu Sua Eminência Reverendíssima Dom Arlindo Gomes Furtado, Cardeal da Igreja Católica e Bispo Emérito da Diocese de Santiago, e o Reverendíssimo Pastor Emanuel David Simas Araújo, Antigo Superintendente Distrital da Igreja do Nazareno, com a Medalha de Mérito Altruístico de 1.º Grau — a mais alta condecoração que o Executivo pode atribuir a quem dedicou a vida ao serviço dos outros.
As distinções formalizadas pelos Despachos n.ºs 15/2026 e 16/2026, de 13 de abril, celebraram duas trajetórias de vida marcadas pela entrega silenciosa e perseverante ao próximo, à comunidade e a Deus — em planos distintos da fé cristã em Cabo Verde, mas convergentes no mesmo ideal de serviço humano.
A cerimónia
Pelas 10h30, no Palácio do Governo, reuniram-se familiares, amigos, autoridades civis e religiosas, membros do corpo diplomático e representantes de organizações internacionais para testemunhar o ato. O Primeiro-Ministro José Ulisses Correia e Silva presidiu à cerimónia, que contou igualmente com a presença do Presidente da Assembleia Nacional, de membros do Governo, de deputados da Nação, do Bispo da Diocese de Santiago e de diversas outras figuras de destaque da vida pública nacional.
A atmosfera foi de solenidade e emoção contidas. Tanto Dom Arlindo como o Pastor David Araújo fizeram uso da palavra após receberem as medalhas, num momento em que a gratidão, a humildade e a reflexão sobre o sentido do serviço foram os fios condutores das palavras de todos os oradores.
Um Cardeal de Cabo Verde para o mundo
Dom Arlindo Gomes Furtado nasceu em Figueira das Naus, no concelho de Santa Catarina, ilha de Santiago. Desde cedo traçou o caminho da vocação religiosa, que o levaria a estudar Teologia em Coimbra e a especializar-se em Sagrada Escritura no Pontifício Instituto Bíblico, em Roma. Ordenado sacerdote em 1976, exerceu funções como Reitor do Seminário Menor de São José e colaborou em projetos de tradução e estudo de textos bíblicos, deixando uma marca profunda na formação religiosa do país.
Em 2003, foi nomeado o primeiro Bispo da Diocese do Mindelo. Seis anos depois, em 2009, assumiu a Diocese de Santiago de Cabo Verde. O momento maior viria em 2015, quando o Papa Francisco o elevou ao cardinalato — tornando-o o primeiro Cardeal cabo-verdiano da história —, num acontecimento descrito pelo próprio Governo como um marco histórico para o arquipélago. Bispo Emérito da Diocese de Santiago, Dom Arlindo celebra, este ano, 50 anos de sacerdócio.
A condecoração reconhece o seu percurso excepcional ao serviço da Igreja, do país e da projeção internacional de Cabo Verde. O Primeiro-Ministro sublinhou a dimensão desse legado: “O primeiro cardeal cabo-verdiano, conselheiro do Papa, Vossa Eminência deu a Cabo Verde uma dimensão universal. Cabo Verde continua a contar consigo, como um bom pastor de causas sociais, para continuar a transmitir para nós”, afirmou Ulisses Correia e Silva, Primeiro-Ministro
Um pastor que construiu pontes entre ilhas e comunidades
Natural de Tchanzinha, na ilha de São Nicolau, onde nasceu a 16 de fevereiro de 1962, Emanuel David Simas Araújo revelou desde a adolescência uma forte vocação para o ministério religioso. O começo da sua missão em São Nicolau decorreu em circunstâncias exigentes, marcadas pela escassez de recursos e pelos desafios pastorais próprios de um território insular e disperso.
Ao longo de várias décadas percorreu diferentes ilhas do arquipélago, com especial impacto em Santiago, onde acompanhou espiritualmente inúmeras famílias e contribuiu para fortalecer o tecido comunitário. Como Superintendente Distrital da Igreja do Nazareno em Cabo Verde — cargo que exerceu durante 28 anos —, liderou a expansão e consolidação da presença da Igreja no país, bem como o reforço da sua intervenção social.
A distinção que lhe foi conferida reconhece um percurso ao serviço da fé, da coesão social e da dignificação da pessoa humana em Cabo Verde. O Primeiro-Ministro, que recordou ter sido colega de liceu do Pastor David Araújo, destacou o significado da sua obra: “Esta condecoração é o reconhecimento de um exemplo vivo de fé, dedicado ao serviço da Igreja, mas também ao serviço comunitário. Um percurso que diz tudo. De um jovem pastor cuja obra contribuiu e contribui para a paz social, para a união da comunidade cabo-verdiana, para a construção de uma sociedade mais pacificada”, declarou o Primeiro-Ministro José Ulisses Correia e Silva.
“Reconhecer estimula” — as palavras do Cardeal
Com a serenidade que o caracteriza, Dom Arlindo Furtado começou por recusar qualquer visão individualista da sua trajetória. Numa intervenção marcada pela humildade e pelo reconhecimento do papel dos outros na construção de cada pessoa, afirmou que somos todos fruto da interação social, da família, das instituições e das estruturas que nos formaram.
“Antes de mais, a minha gratidão à família que me gerou, acolheu e educou, à escola, às instituições do país, à nossa sociedade que me educou. No meu caso pessoal, ao seminário, à Igreja — que me fez digno, com algum esforço pessoal e com muita graça de Deus”, afirmou Dom Arlindo Gomes Furtado, Cardeal da Igreja Católica
O Cardeal refletiu também sobre o valor simbólico do reconhecimento público, defendendo que a distinção não é apenas uma honra pessoal, mas um sinal que estimula toda a sociedade a dar mais e melhor. Numa passagem de grande profundidade pedagógica, rejeitou a ideia de alunos sem capacidades, preferindo falar de pessoas com vocações ainda por descobrir. “Não há burrinhos. O ser humano não é burrinho. Há pessoas com alguns interesses, por alguma razão, mas não há burrinhos. Nós temos imensas capacidades. Reconhecer estimula e desbloqueia as pessoas para desenvolverem mais as suas capacidades, para melhor dar”, asseverou, apelando, a seguir, à continuação do esforço coletivo com humildade, citando a máxima evangélica como guia de vida: ser perfeito como é perfeito o Pai celestial é uma progressão, nunca uma chegada.
“Eu sou porque somos” — Reverendo David Araújo
O Pastor David Simas Araújo iniciou a sua intervenção com uma frase que ficou gravada na memória dos presentes: “Eu sou porque somos”. Com estas palavras do pensamento africano Ubuntu, sublinhou a dimensão coletiva de toda a realização individual, e prestou homenagem à memória da sua mãe, já falecida, a quem reconheceu como a âncora da sua fé. “Eu reconheço a importância da família. A minha mãe faleceu há alguns anos; ela bem gostaria de poder estar presente. Se sou o que sou hoje, devo-o à orientação espiritual, às orações e à orientação de uma mulher que colocou a Palavra de Deus acima de todas as coisas”, declarou o Superintendente cessante do Distrito Sul da Igreja do Nazareno.
O Pastor recordou também o papel formador de uma professora da Praia que, com orgulho, dizia ter formado na sua turma pastores, padres e políticos — testemunho da importância da educação na construção de cidadãos comprometidos. Notavelmente, David Araújo confessou sentir certo desconforto com as atenções públicas, revelando que quando contactado para a cerimónia transmitiu que preferia passar despercebido. Porém, rapidamente enquadrou a distinção no contexto mais amplo da missão da Igreja do Nazareno em Cabo Verde e no mundo:
“Eu entendo que a Igreja do Nazareno, a instituição que sirvo há muitos anos em Cabo Verde, e o reconhecimento por parte do Governo da sua ação pastoral nas ilhas de Cabo Verde, da formação do homem cabo-verdiano — uma Igreja que não tem servido apenas Cabo Verde. Temos obreiros e crentes nos Estados Unidos da América, em toda a Europa, em países onde o secularismo é forte”, afirmou o Pastor Emanuel David Simas Araújo, que terminou com um pedido de oração pelo país e com uma expressão de esperança: que as dez ilhas de Cabo Verde possam ser uma referência de força de espírito humano para o mundo.
A voz dos tempos — o apelo do Primeiro-Ministro
No seu discurso, o Primeiro-Ministro José Ulisses Correia e Silva foi além do protocolo da condecoração para endereçar um apelo profundo aos dois homenageados — e, por extensão, à sociedade cabo-verdiana. Num tempo que descreveu como “complexo e desafiante”, marcado pela pós-verdade e pelos excessos das redes sociais, o chefe do Executivo pediu que as vozes serenas e comprometidas dos dois líderes religiosos continuem a fazer-se ouvir.
“É bom ter sempre presente a vossa voz — continuada, perseverante, dirigida à ação com retidão democrática, ao bem comum e à serenidade, na abordagem da política, numa era muito complicada das redes sociais, onde os limites são ultrapassados à distância de um clique, e onde o cavalgar da pós-verdade elimina as fronteiras entre o bem e o mal, entre a verdade e a mentira”, manifestou Ulisses Correia e Silva.
O Chefe do Governo concluiu com um apelo direto aos dois condecorados para que continuem a partilhar mensagens de positividade, valores e esperança — sobretudo para os jovens. “Este país precisa dos vossos ensinamentos e clareza”, afirmou, acrescentando com uma nota de ânimo: “Ainda são jovens e temos muito caminho pela frente.”
Uma distinção, duas tradições, uma missão comum
A condecoração simultânea de um líder católico e de um líder de uma Igreja protestante não é um gesto sem significado. Ao distinguir Dom Arlindo Furtado e o Pastor David Araújo com a mesma medalha, no mesmo ato, o Governo de Cabo Verde enviou uma mensagem de respeito pelo pluralismo religioso e de reconhecimento do papel central que ambas as tradições cristãs têm desempenhado na construção da identidade, da coesão e da resiliência da sociedade cabo-verdiana.
A Medalha de Mérito Altruístico de 1.º Grau — a mais alta condecoração do Executivo — destina-se a honrar aqueles cujas vidas se confundem com o próprio ato de solidariedade, como sublinhou o Primeiro-Ministro. Nas trajetórias de Dom Arlindo e do Pastor David, o Governo encontrou duas expressões distintas desse ideal: uma marcada pela diplomacia espiritual de alcance universal; a outra, pelo trabalho pastoral de raiz comunitária, de ilha em ilha, de família em família.