Mais de 50 mil mulheres já passaram pelo Banco de Leite Humano do Hospital Universitário Agostinho Neto. Mais de cinco mil mulheres fizeram doações e mais de cinco mil recém-nascidos beneficiaram do leite humano disponibilizado ao longo dos 15 anos de existência deste serviço. Entre histórias de sobrevivência, solidariedade e desafios, o Banco de Leite prepara-se para uma nova etapa de crescimento.
Há 15 anos, um frasco de leite materno começou a representar muito mais do que alimento para alguns recém-nascidos em Cabo Verde. Tornou-se uma possibilidade de sobrevivência, uma resposta para mães que enfrentam dificuldades na amamentação e, sobretudo, um gesto de solidariedade entre mulheres.
Por trás de cada doação, existem histórias de mães e bebés. Uma delas é a da Emília Semedo que viu o filho Péricles Furtado nascer prematuramente, com menos de meio quilo, depois de uma gravidez marcada por complicações de saúde. Péricles foi internado na Neonatologia e enfrentou vários momentos críticos, incluindo paragens cardíacas. Sem conseguir produzir leite nos primeiros dias, a mãe encontrou no Banco de Leite uma resposta para alimentar o filho enquanto este lutava pela vida.
O leite doado por outras mães tornou-se parte desse processo. A experiência permanece viva na memória da família. “Foi um gesto nobre da maternidade do Hospital Agostinho Neto e também do Banco de Leite”. Recorda Emília Semedo.
A mãe recorda também o trabalho desenvolvido pelos profissionais da Neonatologia, que acompanharam o bebé durante os momentos mais delicados. “A equipa lutou com ele para que ele não morresse.” Hoje, aquele leite que chegou num momento de desespero representa, para esta família, uma lembrança de solidariedade e esperança.
Quando a dificuldade para amamentar também pesa o emocional
Nem sempre as dificuldades relacionadas com a amamentação são apenas físicas. Para algumas mães, a baixa produção de leite, as dificuldades na pega ou a pressão para conseguir amamentar, podem provocar ansiedade, insegurança e sentimentos de culpa. A psicóloga Maria Dias que acompanha as mães na maternidade explica que o aleitamento está diretamente relacionado com o estado emocional da mulher. “A amamentação está profundamente e intimamente ligada às emoções da mãe”.
Segundo a especialista, situações como dificuldades na pega ou a perceção de que não há leite suficiente, podem aumentar a ansiedade da mãe e criar um ciclo que acaba por dificultar ainda mais a lactação. “O período da gravidez e do pós-parto é, por si só, uma fase de grande vulnerabilidade emocional”. Por isso, o acompanhamento psicológico torna-se importante para mulheres que enfrentam dificuldades na amamentação, situações de perda ou outros desafios emocionais associados à maternidade.
A pressão social também pode contribuir para aumentar a insegurança. “Basta a criança chorar que a primeira resposta é: “vai mamar”. Para a psicóloga, é importante que a mãe compreenda que enfrentar dificuldades não significa fracassar. Neste processo, a família tem igualmente um papel importante, seja através do acompanhamento às consultas, seja ajudando nas tarefas domésticas ou garantindo um ambiente de apoio e segurança para a mãe.
Da doadora ao bebé: o percurso do leite
Mas antes de chegar a um recém-nascido, o leite doado passa por várias etapas. A enfermeira Ester Lopes, responsável pelo Banco de Leite Humano do HUAN, explica que o serviço funciona diariamente e que grande parte da sua atividade está relacionada com a promoção, proteção e apoio ao aleitamento materno.
A recolha, processamento e distribuição do leite constituem outra componente fundamental do trabalho. Existem diferentes perfis de doadoras. Há mães cujos filhos estão internados na Neonatologia e que fazem a extração de leite para os próprios bebés, mas que também podem doar o excedente. Existem ainda doadoras eventuais e mulheres que fazem a doação a partir de casa. Nestes casos, a equipa do Banco pode fazer a recolha do leite uma a duas vezes por semana, utilizando uma mala térmica, para garantir o controlo da temperatura durante o transporte.
Antes de uma mulher se tornar doadora, existe um processo de avaliação. São analisados, entre outros elementos, o histórico de saúde, eventuais transfusões de sangue, medicamentos utilizados durante a gravidez e resultados de exames laboratoriais. A doação só é aceite depois de validada pelos profissionais responsáveis.
Segurança antes de tudo
Depois de chegar ao Banco, cada frasco é avaliado antes de entrar no processo de pasteurização. São observados aspetos como a cor, o cheiro e as condições da embalagem. O leite é posteriormente pasteurizado a 62,5 graus Celsius, seguindo-se um processo de arrefecimento e controlo microbiológico. Ester Lopes explica que a segurança é uma das prioridades do serviço. “O leite que testar positivo para contaminação é automaticamente descartado, independentemente do volume”.
O leite pasteurizado pode permanecer congelado durante até seis meses, segundo a responsável. Mais do que aumentar o volume de leite disponível, a prioridade é garantir que o produto chega ao recém-nascido com qualidade e segurança. “Não estamos só a falar de quantidade, mas de garantir qualidade certificada até chegar ao recém-nascido”.
15 anos de crescimento
Ao longo de uma década e meia, o Banco de Leite também mudou internamente. Quando começou, o serviço contava com uma equipa muito mais reduzida. Atualmente, dispõe de três enfermeiras, uma bióloga e dois auxiliares de serviço geral, de acordo com Ester.
A formação dos profissionais também passou a ser uma componente permanente do funcionamento do Banco, através da ligação à rede global de Bancos de Leite associada à Fiocruz, no Brasil. Sempre que são introduzidas alterações nos procedimentos, os profissionais precisam de receber formação para que essas normas possam ser aplicadas no serviço.
Cabo Verde é o primeiro país africano aceite como membro cooperante no programa de certificação da Fiocruz, processo que avalia aspetos como as infraestruturas, os equipamentos, os profissionais e os procedimentos técnicos. O processo de certificação encontra-se em preparação, aguardando-se a continuidade dos trabalhos com a equipa brasileira.
Um serviço que ultrapassa as paredes do hospital
A ação do Banco de Leite não fica limitada ao Hospital Dr. Agostinho Neto. Ao longo destes 15 anos, o leite processado na Praia já foi enviado para o Hospital Regional Santa Rita Vieira, em Assomada, e para o Hospital Batista de Sousa, em São Vicente, em períodos em que foi necessário reforçar os stocks.
Também houve momentos em que a situação se inverteu e São Vicente enviou leite para a Praia quando o Banco de Leite do HUAN enfrentava dificuldades para garantir volume suficiente. Na cidade da Praia, a captação é ainda apoiada por postos de recolha localizados em Fazenda e Tira Chapéu, onde as doadoras entregam o leite que posteriormente é encaminhado para o Banco de Leite do HUAN, para processamento.
Uma semana dedicada ao aleitamento
As comemorações relacionadas com a Semana Mundial do Aleitamento Materno também permitiram dar maior visibilidade ao trabalho desenvolvido. Em parceria com o Programa Nacional de Nutrição, foram realizadas várias atividades, entre elas, a inauguração de uma sala de amamentação na Universidade de Cabo Verde, destinada a funcionárias e estudantes que precisam de um espaço para extrair leite ou amamentar os seus filhos.
O Banco de Leite promoveu ainda o primeiro Seminário do Aleitamento Materno, reunindo profissionais ligados à saúde materno-infantil. Foram abordados temas relacionados com a fisiologia da lactação, as dificuldades durante a amamentação, o processamento do leite e a sua distribuição. Também foram realizadas rodas de conversa com gestantes e puérperas, com o objetivo de incentivar a amamentação e a doação de leite humano.
O crescimento trouxe novos desafios
Apesar dos resultados alcançados, os 15 anos também trouxeram novas necessidades. O espaço físico é hoje um dos principais desafios identificados pela responsável. O Banco foi pensado para uma realidade de há 15 anos, quando o número de mulheres atendidas e de doadoras era inferior ao atual. “O espaço já está a mostrar-se insuficiente, pequeno demais para a demanda que nós temos”.
A necessidade de reforçar os recursos humanos é outro desafio. Com o aumento do horário de funcionamento, a equipa precisa de mais profissionais para evitar a sobrecarga, sobretudo durante períodos de férias ou ausência por doença. Para Ester Lopes, crescer significa também garantir condições para responder à procura.
Em jeito de retrospetiva, a responsável avalia positivamente os 15 anos do Banco Leite do HUAN, e olha para o futuro com a ambição deste se tornar uma referência na região. Mas enquanto procura melhorar as suas condições e procedimentos, a mensagem central continua a ser a mesma: é preciso continuar a doar. Para Ester Lopes, o leite materno excedente não deve ser desperdiçado quando pode ajudar outro bebé. “Doação de leite é um ato de amor e de partilha. Nós estamos a partilhar vida”.
Por isso, a responsável apela às mães que têm leite em excesso durante o período de amamentação: “Não deitem fora. Tragam, porque nunca se sabe quantas vidas podem salvar com esse gesto de amor e de solidariedade”. Porque, num Banco de Leite, nem sempre são necessários grandes volumes para fazer a diferença. Às vezes, como lembra Ester, uma pequena quantidade pode ser essencial para um recém-nascido.