Terça-feira, 19 Maio 2026

Elas no Archipelago

Lígia Dias Fonseca: As Vozes do Vento e o Rumo Novo

Mais uma vez a Democracia se fez sentir em força em Cabo Verde e o Povo livremente votou e decidiu que era momento de mudar de rumo. No discurso de vitória, algumas instituições do Estado de Direito Democrático foram gravemente atacadas deixando a alegação de que não se moveram por princípios de imparcialidade e legalidade. O mote está dado para que todos os que foram condenados nos últimos 10 anos, quer pelos tribunais judiciais em ações promovidas pelo MP, quer pelo Tribunal de Contas, venham agora pedir a revisão de sentença! Mas, neste momento, o que mais me interessa é voltar a apelar aos deputados eleitos ( eles e elas) que assumam o compromisso com a igualdade de género e elejam, pela primeira vez na História do nosso Cabo Verde, uma mulher para Presidente da Assembleia Nacional. Este é um apelo que tenho vindo a fazer e que em novembro de 2025 o reafirmei num manifesto intitulado «Por Mais Mulheres no Parlamento, por uma Mulher Presidente da Assembleia Nacional (PAN)».

Ter uma Mulher como PAN não é uma questão de menos importância. É a afirmação do princípio da igualdade consagrado na nossa Constituição da República. Um Mulher PAN também ajudará a combater os preconceitos de género e a ideia de que há lugares para homens e lugares para mulheres independentemente de ambos terem competência e capacidade iguais para o seu exercício.  Como escrevi no meu manifesto , as mulheres, quando ocupam cargos de poder, tornam-se modelos para as novas gerações, quebram estigmas e desafiam o status quo.  Esta presença de uma mulher no cargo de PAN, só por si, já seria uma forma eficaz  de combate à violência simbólica, à exclusão e ao silenciamento das vozes femininas.

Quando se fala tanto num Cabo Verde para todos, é hora de o demonstrar. É hora de Cabo Verde ter este segundo cargo mais elevado na hierarquia do Estado ocupado por uma mulher. E, mais interessante, é que isso é possível, estando nas mãos das deputadas eleitas de todos os três partidos com assento parlamentar. Essa eleição de uma mulher para PAN é suficiente para Cabo Verde melhorar  a sua posição nos índices mundiais de igualdade de género. Por isso, com uma eleição destas temos não só um Cabo Verde para Todos, mas, igualmente, um Cabo Verde para Frente.

A questão é saber se as mulheres eleitas deputadas nacionais nestas eleições de 17 de maio têm este compromisso próprio de lutar dentro dos próprios partidos por esta conquista ou, se mais uma vez, vão ceder o lugar que lhes pertence, a um qualquer homem com um qualquer pretexto de mais experiência, mais altura ou mais capacidade de berrar! Tenho muito pena se, para termos uma mulher PAN,  tivermos de esperar a aprovação de uma lei que imponha a alternância entre os sexos na presidência da Casa do Povo.

Mas, já que estou aqui teclado sobre igualdade, deixem-me ir mais longe e passar já para as eleições que se seguem. A jovem revelação política destas eleições, a presidente do Partido Pessoas, Trabalho e Solidariedade (PTS), Jónica Brito Tavares, não devia perder esta oportunidade de aumentar a sua visibilidade política e de divulgar as suas ideias, no próximo pleito eleitoral. Uma candidatura a Presidente da República põe ao seu dispor toda a comunicação social durante os próximos seis meses. Que oportunidade de ouro para mostrar que as mulheres cabo-verdianas têm poder, capacidade, competência, ousadia e dignidade para enfrentar qualquer desafio político!

Ter mulheres a se candidatarem a Presidente da República é também levar Cabo Verde para frente. Como escreveu Corsino Fortes, “Girassol / Rasga a tua indecisão /E liberta-te.”

Tags: Mulheres no poder – Igualdade de género –  Constituição – eleições

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