Quinta-feira, 29 Outubro 2026

A análise de Alex Sgreccia

Políticas sociais e o combate à extrema-direita

A crise social que se aprofunda em diversos países europeus mostra que o enfrentamento da extrema-direita não se faz apenas no terreno do discurso ou da defesa abstrata da democracia. Ele passa, necessariamente, pela capacidade do Estado de responder às angústias concretas da população: o aluguel que não cabe no salário, o risco de perder a moradia, a precarização do trabalho e a insegurança diante do futuro.

Na Espanha, o governo de Pedro Sánchez prorrogou até o fim de 2026 a suspensão de despejos de famílias vulneráveis sem alternativa habitacional e, em março, adotou uma limitação extraordinária de 2% para a atualização anual de determinados aluguéis até o final de 2027. São medidas que colocam o poder público diretamente no enfrentamento de uma crise que, abandonada à própria dinâmica do mercado, tende a ampliar a frustração e a sensação de desamparo social.

 

No Brasil, guardadas as diferenças entre os dois países, o governo Lula adotou uma lógica semelhante ao reconstruir e ampliar mecanismos de proteção social. Bolsa Família, Pé-de-Meia, políticas de valorização da renda e iniciativas de renegociação das dívidas, como o Desenrola, procuram atuar justamente onde a crise é sentida pela população: na renda familiar, na permanência dos jovens na escola e no peso do endividamento.

O sentido político desse conjunto de ações vai além do benefício econômico imediato. É também a tentativa de demonstrar, na vida cotidiana, que o Estado pode proteger quem está mais exposto às crises e reduzir a insegurança que alimenta a descrença nas instituições. É nesse ponto que a política social se encontra com a disputa contra a extrema-direita. Estudos comparativos na Europa encontram relação entre insegurança econômica e maior apoio à direita radical e indicam que mecanismos de proteção, como benefícios mais robustos aos desempregados, podem reduzir o efeito político dessa insegurança.

Isso não significa que Bolsa Família, controle de aluguéis ou proteção contra despejos, isoladamente, sejam capazes de deter a extrema-direita. Seu crescimento também envolve questões culturais, migratórias, identitárias e institucionais. Mas significa reconhecer que o medo de perder renda, emprego, moradia e perspectivas de futuro cria um terreno fértil para forças políticas que canalizam a revolta social contra adversários, instituições ou grupos apresentados como responsáveis pela crise.

Por isso, as experiências dos governos Lula e Sánchez apontam para uma questão política central: enfrentar a extrema-direita exige também enfrentar as condições sociais das quais ela pode se alimentar. Quando governos democráticos conseguem proteger renda, emprego, educação e moradia, eles não apenas aliviam o sofrimento imediato; disputam concretamente a confiança da sociedade e reduzem o espaço político aberto pelo abandono e pela desesperança. A defesa da democracia, portanto, não pode ficar restrita às instituições. Ela precisa chegar à mesa, ao salário, à escola, à dívida e ao aluguel. É nesse terreno concreto da vida social que uma parte decisiva dessa disputa política também será travada.

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