Quinta-feira, 20 Agosto 2026

A análise de Alex Sgreccia

Guerra no Irã e segurança alimentar

A guerra envolvendo o Irã e as interrupções no Estreito de Hormuz representam uma nova ameaça à segurança alimentar mundial. O impacto não ocorre apenas pela eventual falta de alimentos, mas sobretudo pela alta da energia, dos transportes e dos fertilizantes. Hormuz é uma artéria estratégica para petróleo e gás e também para insumos agrícolas: a FAO e a UNCTAD alertam que as perturbações na região elevam os custos de produção e transporte e podem se transmitir aos preços dos alimentos em praticamente todo o mundo. Há uma semelhança importante com o choque provocado pela invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022.

Naquele momento, o problema estava diretamente ligado à oferta de cereais e fertilizantes: Rússia e Ucrânia tinham enorme participação no comércio mundial de trigo, milho e óleo de girassol, enquanto Rússia e Belarus eram grandes fornecedores de fertilizantes. A guerra, o bloqueio dos portos do Mar Negro e as restrições comerciais contribuíram para uma das maiores altas de commodities desde a década de 1970. O Banco Mundial estimava, em abril de 2022, aumento de quase 20% nos preços das commodities não energéticas naquele ano.

O choque atual tem uma transmissão diferente, mas potencialmente igualmente perigosa: vai da energia para os fertilizantes, destes para a produção agrícola e, finalmente, para o preço dos alimentos. Petróleo mais caro encarece máquinas, transporte e frete marítimo; gás natural mais caro aumenta o custo dos fertilizantes nitrogenados. Se essa situação persistir, agricultores de países pobres podem ainda reduzir o uso de fertilizantes, comprometendo as próximas safras e transformando um choque inicialmente energético em redução efetiva da oferta de alimentos.

Para as economias desenvolvidas, isso significa principalmente mais inflação, juros potencialmente elevados por mais tempo e menor crescimento. Nos países pobres, porém, a consequência pode ser muito mais grave. Famílias que gastam grande parcela da renda com alimentação não conseguem simplesmente absorver aumentos sucessivos de preços: passam a reduzir a quantidade e a qualidade do que comem. Governos endividados também dispõem de menos recursos para subsidiar alimentos ou ampliar programas sociais, enquanto as organizações humanitárias precisam comprar comida e combustível a preços maiores.

É nesse ponto que inflação se transforma em fome e risco à vida. O Programa Mundial de Alimentos estimou que, caso o conflito no Oriente Médio se prolongasse, a transmissão da alta da energia para os alimentos poderia acrescentar 45 milhões de pessoas ao contingente em insegurança alimentar aguda nos 53 países analisados, levando o total potencial a 363 milhões em 2026. A experiência da Ucrânia mostrou que guerras travadas em regiões estratégicas para energia ou agricultura rapidamente ultrapassam suas fronteiras. Hormuz reforça a mesma lição: em uma economia mundial profundamente interdependente, uma crise geopolítica pode chegar à mesa de populações a milhares de quilômetros de distância — e são os mais pobres que pagam primeiro e proporcionalmente mais caro.

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