Sexta-feira, 04 Setembro 2026

A análise de Alex Sgreccia

A “onda marrom” avança na Europa

A expressão “onda marrom”, numa referência histórica à cor associada ao nazismo, pode ser utilizada para descrever o avanço contemporâneo da extrema-direita, embora seja importante não confundir automaticamente os atuais movimentos nacional-populistas com o fascismo histórico. O fenômeno, entretanto, é inequívoco: partidos que combinam nacionalismo, hostilidade à imigração, crítica às elites políticas, conservadorismo nos costumes e desconfiança das instituições liberais ganharam um espaço que seria difícil imaginar há quinze ou vinte anos.

A Alemanha talvez seja o exemplo mais simbólico. Nas eleições federais de 2025, a Alternativa para a Alemanha (AfD) recebeu 20,8% dos votos de legenda, praticamente duplicando seu resultado anterior e tornando-se a segunda força política nacional. O significado histórico é evidente: justamente no país cuja ordem política do pós-guerra foi construída em torno da rejeição ao nazismo, uma força de direita radical passou a representar aproximadamente um quinto do eleitorado.

Mas a Alemanha não é uma exceção. Na França, o Rassemblement National (RN) de Marine Le Pen obteve 31,37% nas eleições europeias de 2024, mais que o dobro da lista ligada ao presidente Emmanuel Macron. Em Portugal, onde durante décadas a extrema-direita praticamente não teve expressão parlamentar depois da Revolução dos Cravos, o Chega conseguiu 22,76% dos votos e 60 deputados nas legislativas de 2025. Itália, Áustria, Países Baixos e diferentes países da Europa Central oferecem, com suas particularidades, manifestações da mesma tendência.

Esse crescimento não pode ser explicado por uma causa única. Existe uma combinação de insegurança econômica, crise de representação política e ansiedade identitária. A globalização e a desindustrialização produziram regiões e grupos sociais que se percebem como perdedores das transformações econômicas. A crise financeira de 2008, a pandemia, a inflação e o aumento do custo de vida reforçaram essa sensação. Ao mesmo tempo, imigração e refugiados tornaram-se símbolos de uma transformação cultural que parte da população considera rápida demais.

A extrema-direita conseguiu reunir essas diferentes insatisfações numa narrativa extremamente eficaz: existe um “povo” abandonado por uma elite cosmopolita que protegeria imigrantes, minorias, burocracias internacionais e agendas ambientais, mas não o cidadão comum. Estudos recentes mostram justamente que a agenda desses partidos se ampliou: imigração continua central, mas foi combinada com economia, habitação, oposição às políticas ambientais e guerras culturais envolvendo gênero e família.

A crise é, portanto, também uma crise dos partidos tradicionais. Quando centro-esquerda e centro-direita parecem incapazes de oferecer respostas diferentes para problemas concretos — emprego, salário, moradia, segurança, serviços públicos e imigração — abre-se um enorme espaço para quem promete romper com o sistema. As redes sociais ampliam esse mecanismo porque favorecem mensagens simples, emocionais e polarizadoras. A extrema-direita contemporânea compreendeu particularmente bem essa nova linguagem política.

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