A nova investida contra o Brasil aconteceu dias depois de o presidente Trump acusar o presidente de Lula de adotar uma política internacional “volátil”, contrária aos interesses de Washington. No comunicado do Departamento do Tesouro, o governo Trump voltou a chamar o PCC (Primeiro Comando da Capital) de “maior organização criminosa transnacional do Hemisfério Ocidental” e afirmou que a facção representa uma “ameaça significativa à segurança nacional dos EUA”. Além disso, acusou o PCC de utilizar o sistema financeiro norte-americano para lavar dinheiro.
Em seguida, vieram as primeiras sanções contra dois brasileiros, três empresas baseadas no Brasil e uma empresa portuguesa por suposta ligação com o PCC. As sanções foram formalizadas pelo Departamento do Tesouro norte-americano. É apenas o começo de um processo de retaliação por parte da potência que se julga imperial.
A imposição de tarifas contra produtos brasileiros foi precedida de audiências públicas promovidas pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos da América (USTR, na sigla em inglês), etapa considerada decisiva na investigação comercial americana, e terminou com uma tarifa adicional de 25% sobre uma série de produtos brasileiros. Em pronunciamento, logo depois da imposição das tarifas, o chanceler brasileiro, Mauro Viera, deixou claro que durante o processo de negociação o Brasil respondeu com sólida fundamentação técnica às acusações de práticas comerciais desleais, demonstrando serem infundadas. Afirmou ainda que o Brasil não se curvou diante das chantagens e exigências descabidas feitas pelos negociadores dos EUA, expondo o caráter desleal e prepotente da parte que se julga em posição superior de força para impor decisões.
Num gesto de oportunismo que lhe é próprio, Flávio Bolsonaro, ungido pelo pai e ex-presidente Jair Bolsonaro como seu herdeiro político e pré-candidato à presidência nas eleições de outubro, participou de uma das audiências. Afirmou que as tarifas, que ele mesmo defendera em outras ocasiões, poderiam favorecer a candidatura Lula na corrida eleitoral e pediu que a sua implementação fosse adiada para depois das eleições. Em carta enviada a Marco Rubio, Secretário de Estado dos EUA, reafirmou o pedido. Mais escandalosa ainda foi a oferta, em pé de página, de abrir espaço para uma comissão do governo Trump no processo de transição – supondo a vitória da direita nas eleições – para tratar de interesses mútuos. A vergonhosa submissão ao governo Trump escancarou, de vez, a traição à soberania nacional por parte dos Bolsonaro.
As críticas vieram de todos os lados – “crime de lesa-pátria”, “vendilhões da pátria” – municiando a esquerda. A resposta de Marco Rubio sugerindo que Flávio batera na porta errada, por ser a política comercial do país atribuição do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos e não do Departamento de Estado, deixou a situação ainda mais constrangedora. As pressões do governo Trump sobre o Brasil acontecem num cenário em que os Estados Unidos voltaram a encarar a América Latina como extensão de seu território e a patrocinar ações contra os governos de esquerda que resistem à investida contra sua soberania, como é o caso do Brasil e do México. Os países latino-americanos onde a direita assumiu o poder submeteram-se à nova ordem preconizada por Washington.
Uma variável não pode ser minimizada nesse processo: a possibilidade de interferência externa nas eleições presidenciais. Vale lembrar como ela foi decisiva na eleição de Katz, o candidato da direita no Chile. Processo semelhante ocorreu recentemente na Colômbia, como denuncia o atual presidente Gustavo Petro: “Quem ganhou as eleições por voto popular foi Iván Cepeda; o triunfo de Abelardo se fez com algoritmos localizados na Califórnia e os algoritmos foram produzidos por empresas de inteligência de Israel”.