Quarta-feira, 29 Julho 2026

Abraço das Ilhas

Júlio Rendall: Custo de vida na ilha do Sal. Uma operação matemática, todos os dias!!

O termo salário, segundo rezam escritos antigos, deriva da palavra sal, um mineral valioso em épocas passadas, e que detinha propriedades variadas, suprindo necessidades essenciais e básicas para a vida humana, pelo que constituia moeda de troca entre várias comunidades. A capacidade de conservação dos alimentos (peixe, carne) nas longas viagens transatlânticas e mesmo outras utilidades necessarias à vida, encontravam no sal as condições que transformaram esse mineral num bem valioso e precioso.

As pessoas utilizavam o sal para pagar serviços, para trocas comerciais, pelo que até hoje o termo salário prevalece atravessando civilizações ao longo de séculos, daí que foi adoptada a palavra salário para trocas e pagamento de serviços. 

Na ilha do Sal, o salário sempre teve um valor especial, pois, sendo uma ilha de prestação de serviços, a mão de obra, quase sempre originária de outras regiões do País, encontra aqui forma de arrecadar algum dinheiro que envia para os familiares.

Na localidade de Pedra de Lume, em tempos de crise monetária, no decorrer das I e II Guerras Mundiais ─ 1914/1918 e 1940/1945 ─, houve a necessidade de serem cunhadas moedas, as chamadas djatonas (jatons, em francês) para suprir a falta de moedas no mercado e, assim, se poder pagar aos trabalhadores.

Diz-se que o dinheiro comanda a vida, mas como fica esse comando quando, no fim do mês, não se consegue pagar as contas! Ora, o custo de vida na ilha do Sal é o mais elevado do país, impulsionado sobretudo pelos gastos com habitação e alimentação. Esta realidade reflete-se no surgimento de assentamentos informais ─ como se verifica nas periferias das cidades de Santa Maria e de Espargos ─, onde o saneamento e o acesso a habitação condigna são ainda precários para as famílias que trabalham no setor hoteleiro, com salários baixos.

O nível de vida na ilha do Sal classifica-se como o mais alto em termos de custo de vida e de consumo essencial em Cabo Verde, marcado por fortes desigualdades sociais entre o turismo de resort e os rendimentos dos residentes locais. Segundo dados estatísticos, existe uma grande pressão na Ilha do Sal devido à grande diferença entre o custo de vida e as despesas para o sustento familiar, com reflexos enormes na situação social da ilha.

O custo do cabaz de bens e serviços essenciais na Ilha do Sal fixa-se em 34.756 escudos cabo-verdianos (cerca de 315 euros), de acordo com a atualização de junho de 2026 divulgada pela ADECO.  Este valor representa o montante mínimo necessário para um consumidor adulto se sustentar de forma saudável durante um mês na ilha. O Índice de Consumo Essencial na ilha do Sal fixa-se em cerca de 34.756 escudos por pessoa por mês, o valor mais alto do país, superando São Vicente e a cidade da Praia.

Os preços da habitação e do imobiliário em zonas turísticas como Santa Maria atingem médias elevadas (superando os 212.000 escudos/m²), impulsionados pela pressão do setor do turismo, os outros centros urbanos na ilha também seguem este padrão. O custo de produtos alimentares, bens importados e serviços é superior ao de outras ilhas do arquipélago devido à insularidade e à dependência externa, bem como ao nível do turismo existente.

Na ilha do Sal, o cabaz total (bens e serviços) é de 34.756$00 (inclui alimentação, água, eletricidade, gás, comunicações e despesas fixas). A componente alimentar ronda os 18.240$00, e inclui estritamente os produtos alimentares encontrados nas superfícies locais. Ocorreu, entretanto, uma variação recente: o valor registou uma ligeira descida de 0,4% (-153 escudos) face a março de 2026, embora se mantenha significativamente acima do salário mínimo

Fica, portanto, evidente que existe um contraste económico e social no Sal. A ilha concentra a maior parte da atividade turística de Cabo Verde (mais de 50% das entradas e dormidas hoteleiras), gerando muita riqueza e dinamismo económico no setor terciário. No entanto, existe um défice enorme de rendimento para muitas famílias, uma vez que o custo de vida essencial e a inflação superam largamente os salários mínimos praticados no País. Partes da população enfrentam desafios ligados à escassez de habitação condigna e a disparidades salariais no setor do turismo.

Já no tempo colonial, os funcionários públicos colocados na ilha do Sal usufruiam do chamado “subsídio de isolamento”, que complementava o salário, devido ao aparente isolamento da ilha nessa época. Mesmo depois da independência, nos primeiros anos, manteve-se este subsídio agora com a designação de “subsídio de custo de vida”. Posteriormente, o subsídio foi absorvido ao salário uniformizado, a nível nacional, por uma questão de coesão social.

Dados importantes: 

  1. A ilha do Sal é o maior gerador de divisas e receitas fiscais diretas, através do turismo!
  2. O peso no PIB nacional da ilha do Sal é de 30% a 35%!
  3. Quando a economia de Cabo Verde cresce, a ilha do Sal é o maior responsável por este desempenho positivo!
  4. A ilha do Sal acolhe aproximadamente 60,3% de todos os turistas que entram no país, aproximadamente 600 mil turistas!
  5. Anualmente, segundo os dados do Ministério do Turismo, estima-se que a ilha do Sal processe entre 12.000 e 15.000 voos (nacionais e internacionais)!
  6. No Sal, a pobreza absoluta é 15% a 18% de uma população que ultrapassa 40 mil habitantes!
  7. Outrossim, a maior parte das receitas da taxa turística é gerada no Sal, mas, em contrapartida, o Municipio apenas recebe 10% do valor que é arrecadado, o que é uma injustiça para com os habitantes da ilha, que contribuem com a sua força de trabalho para servirem o turismo com implicações em todos os ramos da vida da sociedade salense.

 

Assim, a ilha do Sal reivindica, e com razão, uma melhor distribuição dos rendimentos gerados na ilha pela sua força de trabalho em beneficio das suas populações. Porque viver na ilha do Sal é uma operação matemática, todos os dias!!

 

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