Sexta-feira, 27 Fevereiro 2026

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Falhas e omissões causaram o naufrágio do Nhô Padre Benjamim

O Instituto de Prevenção e Investigação de Acidentes Aeronáuticos e Marítimos (IPAM) divulgou o relatório final sobre o naufrágio do navio Nhô Padre Benjamim, ocorrido a 14 de abril de 2025, a três milhas da costa da Preguiça, na ilha de São Nicolau. O documento de 52 páginas enumera um conjunto de falhas, omissões e incumprimentos de regulamentos por parte da tripulação, do armador e de instituições com responsabilidade no setor marítimo.

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Segundo o relatório, o navio zarpou do porto de Palmeira, na ilha do Sal, já com um excessivo caimento da popa, a parte traseira da embarcação estava mais submersa do que a proa, resultado de um plano de carregamento inadequado. O problema agravou-se por uma falha conhecida e de longa data: a não estanqueidade da rampa da popa, que permitiu a entrada constante de água no interior do navio.

O IPAM sublinha que tanto o armador quanto a tripulação sabia do problema, que persistiu, mesmo após intervenções realizadas em doca seca em Dakar. O próprio capitão tinha conhecimento da situação: limitou a carga a transportar, mas não mandou reconfigurar o carregamento e decidiu seguir viagem. A água continuava a entrar durante a navegação e as bombas internas mostraram-se incapazes de vencer a inundação.

“A tripulação ainda recorreu a bombas adicionais trazidas por uma embarcação de pesca, quando os tripulantes já tinham abandonado o navio que estava prestes a afundar”, relatório do IPAM, 2026.

O relatório não poupa também as entidades do Estado. A Delegação Marítima do Sal emitiu o desembaraço do navio (a autorização de partida quase 48 horas antes da viagem), numa altura em que a embarcação ainda se encontrava em processo de carregamento, sem que fosse verificada a conformidade de todos os requisitos de segurança.

O documento aponta também para um acompanhamento superficial e sem fundamentação técnica por parte do inspetor do Instituto Marítimo e Portuário (IMP) que se deslocou a Dakar para verificar as obras na embarcação. Não foi realizado o teste para verificar a estanqueidade da rampa, nem foram inspecionadas as soldaduras efetuadas no fundo do navio.

O IPAM refere ainda que a prorrogação do certificado de navegabilidade por 30 dias, concedida pelo IMP a pedido do armador um mês antes do afundamento e sem inspeção prévia, é considerada uma má prática, ainda que, segundo o relatório, não tenha contribuído diretamente para a degradação das condições de navegabilidade, dada a existência de problemas pré-existentes conhecidos.

O relatório final do IPAM conclui que o afundamento do Nhô Padre Benjamim resultou de falhas e omissões partilhadas entre o armador, o comandante e outros membros da tripulação, a Delegação Marítima do Sal e o IMP. A conjugação destes fatores tornou a situação incontrolável durante a travessia, levando o navio ao fundo.

A nota positiva do incidente é que toda a tripulação foi salva.

SALWEB.cv AD

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