
A ilha da Boa Vista vive um cenário de caos no abastecimento de gás butano, com consumidores a denunciarem “sofrimento” e “abuso” em longas filas que se formam desde as 04:00 da madrugada nos postos de abastecimento da Enacol e da Vivo Energy (Shell).
A situação mantém-se crítica mesmo após a chegada do navio de reposição na última terça-feira, deixando dezenas de famílias sem o produto essencial para cozinhar.
Maria Antonieta Rocha está há uma semana sem gás. Em declarações à Inforpress, a consumidora revelou que a situação tem impedido a alimentação adequada da família e até a ida das crianças à escola.
“Nós ficamos sem comer em casa. Minha filha já veio três dias seguidos e não consegue comprar”, desabafou, enquanto aguardava na fila pela terceira vez esta semana.
Eugénia Mendes, outra residente de Sal Rei, não escondeu a revolta com a falta de informação por parte dos responsáveis. “É um abuso de poder, ninguém aparece para nos dizer nada e ficamos aqui ao sol, com fome e sem café”, afirmou, classificando a situação como “vergonhosa”.
Apesar do cenário nas ruas, fontes ligadas às empresas distribuidoras garantiram à Inforpress que “não há escassez” de gás na ilha. Segundo estas fontes, o produto está disponível nos armazéns e o navio de reposição fez a descarga normalmente após um ligeiro atraso na passada segunda-feira.
Contudo, outra fonte admitiu que houve uma falha na distribuição de aproximadamente uma semana numa das empresas, o que acabou por sobrecarregar a outra operadora.
Contactados pela Inforpress, os responsáveis locais da Enacol e da Vivo Energy escusaram-se a prestar declarações gravadas, remetendo quaisquer esclarecimentos para as administrações centrais na Praia e em São Vicente. Limitaram-se a assegurar que a reposição “está a decorrer dentro da normalidade”.
A Inforpress apurou que não existem limites de venda por cliente ou agente revendedor. O sistema funciona com base nos pedidos dos agentes às empresas de combustível, que entregam conforme solicitado.
Esta situação “tem facilitado o açambarcamento por parte de alguns, enquanto o consumidor doméstico continua na fila”, revelou uma fonte próxima do processo, referindo-se à possível revenda informal que deixa as grades de gás vazias em poucos minutos. Perante o impasse, os consumidores da Boa Vista apelam à intervenção urgente das autoridades reguladoras e de fiscalização para normalizar o acesso ao produto e garantir que o stock disponível chegue efectivamente a todas as famílias da ilha.
A crise na Boa Vista surge após a ilha de São Nicolau ter enfrentado problemas semelhantes, levantando questões sobre a eficácia da cadeia de distribuição de gás butano nas ilhas periféricas do arquipélago.












































