
Cabo Verde alcançou um marco histórico no setor da saúde com a realização do primeiro transplante renal no país, nesta terça-feira, dia 24 de março, no Hospital Universitário Agostinho Neto (HUAN), na Praia. A cirurgia foi considerada bem-sucedida pela equipa médica, composta por especialistas cabo-verdianos e portugueses, nomeadamente do Hospital de Santo António (Porto), e pela direção do HUAN.
Em conferência de imprensa, o presidente do Conselho de Administração do HUAN, Evandro Monteiro, destacou a importância do momento para o país. “Conseguimos realizar o nosso primeiro transplante renal em Cabo Verde”, afirmou, sublinhando tratar-se de um passo decisivo para o reforço da capacidade do sistema nacional de saúde.
A cirurgia, que durou cerca de três horas, foi descrita como um “êxito total” pela equipa médica, que revelou que tanto a dadora como o recetor apresentam uma evolução clínica positiva. A dadora, que realizou um gesto altruísta ao doar o rim ao irmão, deverá ter alta nos próximos dias, enquanto o recetor continuará internado para monitorização.
Presente na conferência, o cirurgião Norton de Matos, reconhecido em Portugal e na Europa pela sua experiência neste tipo de cirurgia, lembrou que o processo para a realização do primeiro transplante renal em Cabo Verde não foi fácil, tendo em conta a necessidade de criação de um enquadramento legal. “Ultrapassaram-se todas as barreiras e isto foi o princípio do futuro. Precisamos de trabalhar para o futuro e cá estamos; finalmente demos este passo que nos enche o coração”, afirmou.
O especialista português explicou ainda que o processo exige rigorosos critérios de seleção, incluindo a compatibilidade entre dador e recetor e uma avaliação clínica detalhada, sendo parte dos exames realizados em Portugal. Por sua vez, o nefrologista Hélder Tavares considerou que o transplante representa uma alternativa mais eficaz para doentes com insuficiência renal crónica avançada, que até então dependiam da diálise ou de evacuações para o exterior. “O transplante renal é o tratamento mais eficaz para estes doentes e melhora significativamente a qualidade de vida”, explicou.
A realização desta intervenção resulta de um longo processo de preparação, que incluiu a criação de condições técnicas, a formação de profissionais e a aprovação de legislação específica nos últimos anos, com o envolvimento do Ministério da Saúde e de parceiros internacionais, como o Instituto Camões. O HUAN garantiu estar preparado para dar continuidade a este tipo de procedimentos, desde que existam condições clínicas e doadores compatíveis, lembrando que a lei cabo-verdiana permite a doação entre familiares até ao terceiro grau.
Com este transplante renal, Cabo Verde abre novas perspetivas para centenas de doentes e dá um passo significativo rumo à autonomia em cuidados de saúde diferenciados, reforçando a confiança da população no sistema nacional.












































