
Um estudo multicêntrico pioneiro traçou o primeiro perfil epidemiológico dos distúrbios do movimento em Cabo Verde, revelando que cerca de 70% dos doentes enfrentam dificuldades moderadas ou graves no acesso a medicamentos.
A investigação, realizada entre julho e dezembro de 2024 e publicada a 02 de março de 2026 numa revista internacional de saúde pública, indica que a Doença de Parkinson é a patologia mais expressiva deste grupo no arquipélago, representando 79% dos casos diagnosticados.
O estudo aponta para uma prevalência padronizada de 17 casos por 100 mil habitantes. O risco aumenta significativamente com a idade, atingindo 117 casos por 100 mil pessoas com mais de 60 anos, sendo os homens os mais afetados.
Apesar de 78% dos pacientes estarem sob tratamento farmacológico, os investigadores identificaram falhas críticas no sistema de saúde, com 70% dos doentes a reportarem dificuldades no acesso aos medicamentos necessários.
Entre as principais barreiras apontadas estão o elevado custo dos tratamentos, processos burocráticos na importação de fármacos, ausência de medicamentos modernos no formulário nacional, centralização dos serviços de neurologia na ilha de Santiago e impactos na qualidade de vida dos pacientes.
Para além dos sintomas motores, o estudo indica que o impacto social da doença é significativo. Cerca de 51% dos participantes afirmaram que a patologia afeta de forma relevante a sua independência e participação social.
A investigação destaca ainda que o acesso a terapias complementares, como fisioterapia e terapia da fala, é considerado fragmentado e geograficamente inacessível para doentes que vivem fora da capital.
Segundo os autores, embora Cabo Verde apresente uma das maiores densidades de médicos da África Subsaariana, a escassez de neurologistas especializados e a ausência de protocolos estruturados deixam muitos doentes em situação de vulnerabilidade.
O estudo recomenda, por isso, a descentralização dos cuidados de saúde, a integração dos distúrbios neurológicos nos planos nacionais de combate às doenças não transmissíveis e o reforço do diagnóstico precoce e tratamento em todas as ilhas do arquipélago.
Intitulado “Distúrbios do movimento em Cabo Verde: epidemiologia, barreiras de acesso e implicações para a saúde pública em uma população insular em envelhecimento”, o estudo foi desenvolvido por Leida Tolentino, Filipe Monteiro, Cláudia Pires e Antónia Fortes, com apoio financeiro do Instituto Nacional de Previdência Social de Cabo Verde (INPS).
Os investigadores consideram que este primeiro estudo epidemiológico nacional sobre doenças neurológicas expõe lacunas significativas no sistema de saúde pública no enfrentamento de doenças neurológicas crónicas, evidenciando desigualdades no acesso aos cuidados e a crescente vulnerabilidade demográfica do país.












































