Os 47’s – depoimentos que ficaram é uma longa investigação académica que contou com 72 entrevistas, traduzida num maravilhoso e sensível filme de 90 minutos. Produzido sem financiamento externo, o documentário é uma obra de resistência às narrativas hegemónicas sobre a fatalidade do arquipélago que marcaram a sua história e identidade do seu povo.
Vários pontos ajudam a entender as fomes de Cabo Verde, não apenas a geografia e a zona climática em que se insere (região do Sahel), explica o geógrafo Aquiles Almada, como também a sua construção histórico-temporal, e as dinâmicas migratórias a que está constantemente sujeito e que se definem, também elas, pelas dinâmicas da fome.
É um autêntico puzzle histórico que tenta ligar a realidade local da fome à negligência política do regime colonial português, e o filme de Artemisa Ferreira cultiva a memória, olhando de frente uma das décadas mais difíceis vividas no arquipélago. Soa quase como um grito histórico, uma procura de respostas e uma honrosa homenagem às vítimas.
Muitos dos relatos ─ incluem narrações de quase todas as ilhas ─ são contados na primeira pessoa por quem vivenciou as fomes de 1947 e foi afetado pelo Desastre da Assistência em 1949. “Os 47’s – depoimentos que ficaram” é, por isso, um registo de educação contra-colonial, uma ode ao debate em casa e nas escolas, em busca de uma melhor compreensão da história, contada pelos próprios cabo-verdianos.
Antes de terminar a apresentação, Artemisa pediu aos estudantes para arquivarem momentos com a família e amigos e aproveitarem para criar recordações para que a memória não se apague.
O Desastre da Assistência
Em 1940s, década de longas secas e escassez de alimento, o regime do Estado Novo introduziu vários postos de distribuição de comida para os mais necessitados. Só na cidade da Praia, 3.500 pessoas deslocavam-se diariamente ao recinto de Assistência Pública. “Gente desgraçada, que vinha de todos os cantos da ilha de Santiago para receber aquela que seria, provavelmente, a sua única refeição”. Várias criticas podem ainda ser feitas à qualidade da comida servida.
No dia 20 de fevereiro de 1949, na Praia, enquanto as famílias aguardavam em fila, ao sol pelo o seu mísero sustento, ao seu lado estava um muro em mau estado que por alguma força do vento derrubou por cima de quem aguardava a sua dose diária. Haviam mães grávidas, crianças e adolescentes, todos de repente de baixo de escombros.
Após esta tragédia que ficou conhecida como o Desastre da Assistência de 1949, Salazar, ao saber das notícias ordenou que se abrissem valas comuns para enterrar os corpos e se parasse de contar os mortos. Constam 232 (número oficial) pessoas nos relatórios até a censura da contagem. O funeral coletivo ocorreu no dia 21 de fevereiro às 16 horas.
A posição geográfica em que se localiza Cabo Verde tem os seus desafios, mas sem a terrível e brutal gestão por parte do regime colonial ao não solicitar ajuda estrangeira ou interna (Angola era a região responsável de dar assistência a Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Guiné) e ao deixar a situação em Cabo Verde longe do conhecimento internacional foi determinante no agravamento do problema.
Nota da Redação: esta notícia foi produzida com a colaboração da estagiária Bruna Castro.