No painel de alto nível “Kriolidadi pa mi”, ouviu-se perspetivas de Angola, da ilha da Reunião, UNESCO, e CPLP. Filipe Silvino Zau, ministro da Cultura da República de Angola falou sobre a diferença que o termo tem em Angola em relação a Cabo Verde. Enquanto no arquipélago o termo é usado numa interpretação “antropossociológico”, em Angola é um termo “linguístico”, referiu Zau, que, como herdeiro destas duas sociedades, diz entender as variantes da interpretação da palavra até porque, entre outras razões, o “crioulo” não pertence a ninguém em particular.
Destaque ainda para a sessão 1, subordinada ao tema “Crioulidade Atlântica: Genealogia, História, Resistência e Modernidade”, em que se falou do passado escravocrata e de como definiu o Atlântico durante mais de quatro séculos ─ e transformou este oceano num “enorme cemitério” ─, e ainda das histórias de resistência física, mas também cultural dos escravizados.
O professor Doudou Diene, do Senegal, definiu racismo como “uma construção intelectual, académica, cientifica usada para justificar” o uso dos corpos como “mercadoria”. Só a desumanização completa desse “outro” permitiria um ato tão bárbaro e selvagem como foi o tráfico de pessoas, explicou Diene.
Falou-se ainda em questões de género, e como as mulheres negras ou racializadas, cujos corpos foram violentados, foram símbolos de resistência. Elas que eram alvo da “lei do ventre” na sociedade escravocrata, ou seja, mãe livre daria à luz filhos livres e mães escravizadas traria filhos escravizados.
Referiu-se ainda a importância de se desconstruir a construção do termo “raça” e da necessidade de uma resistência ao capitalismo e à economia liberal para que estes não se apoderem da cultura e a tornem parte do sistema, desempenhando aqui a espiritualidade “um papel fundamental”.
Zulu Araújo, um dos oradores da sessão 2 ─ As Dinâmicas Históricas da Diasporização Atlântica ─ atravessou o Atlântico para falar da perspetiva do Brasil em relação à crioulidade, e explicou que os efeitos do tráfico permanecem, sendo ainda visíveis nas desigualdades sociais que afetam a sociedade brasileira contemporânea, e nas “mais de 5,000 palavras” oriundas dos idiomas bantu integradas na língua portuguesa que se fala no Brasil temos
Na mesma sessão, o historiador Charles Akibode fez uma apresentação sobre Cidade Velha, explicando que a arquitetura militar desta urbe histórica nasceu da necessidade de defesa do modelo de economia que praticava (o tráfico negreiro), e cuja riqueza estava refletida na arquitetura religiosa: as igrejas serviam para batizar os escravos, pois o “escravo batizado era mais caro”. E, por causa dessa “economia pujante” e da “densidade populacional católica”, o Papa deu ordens para se construir uma catedral na cidade.
A dimensão civil na arquitetura é visível no porto, onde desembarcavam todos os tipos de mercadoria. Estes eram vendidos na praça segundo o mesmo modelo usado em cidades como Bordeaux ou Lisboa, ou seja, “aspirar a riqueza do povo”, os recursos das suas terras e o povo, ele mesmo reduzido a mercadoria.
Seguiu-se uma viagem até a Cidade Velha, com passagens pela Igreja Nossa Senhora do Rosário, pelo centro cultural e pela Fortaleza S. Filipe para um concerto ao pôr do sol.
O encontro termina amanhã, 30, começando o dia com a leitura pública da “Declaração da Praia” (sessão de encerramento) e uma visita à exposição de artes plásticas e artesanato que está patente na Praça Alexandre Albuquerque (Plateau). O ponto final está agendado para as 18h30, com o concerto “Nôs tud nôs ê kriol”, na Rua Pedonal, também no centro histórico da cidade da Praia.
Nota da Redação: esta notícia foi produzida com a colaboração da estagiária Bruna Castro.