Sábado, 17 Janeiro 2026

Grande Entrevista

William Vieira: “Orlando Mascarenhas é uma relíquia”

Iniciamos hoje a publicação, em três partes, da entrevista conjunta feita ao investigador William Vieira, autor da biografia “Vida e Obra de Orlando Mascarenhas”, e ao próprio biografado. Neste primeiro capítulo, damos voz ao investigador, que revela como nasceu e cresceu este retrato biográfico, em meio a desafios e descobertas surpreendentes sobre o homenageado.

Por: Teresa Sofia Fortes

Voz do Archipelago (VA) – Muito obrigada aos dois por nos concederem esta entrevista. Começo consigo, William. Como nasceu a ideia de escrever a biografia de Orlando Mascarenhas.

William Vieira (WV) – A ideia de escrever a biografia surgiu quando trabalhava no Comité Olímpico Cabo-Verdiano, ali conheci o Sr. Orlando Mascarenhas. Tivemos oportunidade de estreitar relações enquanto fazíamos várias investigações. Eu sabia que o Sr. Orlando era uma pessoa que tinha muito conhecimento sobre o passado desportivo cabo-verdiano, e eu como investigador – escrevia e ainda escrevo em vários jornais da praça – entrevistei-o. Foi assim o início da nossa relação. Sensivelmente um ano depois, fui para Portugal, onde estive a fazer o mestrado, mas continuamos a trabalhar juntos, várias investigações, por exemplo, a história do vólei na cidade da Praia é da autoria de Orlando Mascarenhas e William Vieira, a história e a construção do Sporting Clube da Praia, que teve início em 1923 com o Sporting Clube de Cabo Verde, e assim sucessivamente. No período, entendi que aquele homem não era apenas e só o desporto. Pelas investigações e pelos amigos descobri que Orlando Mascarenhas era um homem que, no passado, sobretudo no período de 1975 a 1990, fez um trabalho in extremis a nível de Cabo Verde (mas ainda hoje continuar a trabalhar). Eu tinha, numa primeira instância, proposto trabalhar apenas a biografia no sentido desportivo, mas depois vi que seria muito curto e até injusto, e fiz a proposta de uma biografia mais ampla ao Sr. Orlando Mascarenhas e ele aceitou.

VA – O que o motivou pessoalmente a fazer esse trabalho?

WV – A própria figura de Orlando Mascarenhas. No período em que estive no Comité Olímpico, quando ele entrava numa sala, cumprimentava um por um, e isso é algo que fica marcado. E sempre se apresentava disponível para as investigações que eu fazia sobre desporto, mais ou menos, do século XIX e século XX. Senti que este senhor não é um homem qualquer e pela história que tem, entendi que poderíamos ir mais além, aprofundar e também resgatar a história de Cabo Verde. Falo sobretudo da EMPA, do Instituto Cabo-Verdiano de Solidariedade, da Câmara de Comércio, do Sporting da Praia, do RAC Clube, que é um clube extinto, de que hoje já ninguém fala. Entendi que o Sr. Orlando é uma relíquia de Cabo Verde. Ele fez parte, e está a contribuir até ainda para a história de Cabo Verde, e por isso decidi avançar com o livro.

VA – O livro reúne relatos, documentos, inéditos e também testemunhas de diversas personalidades. Como foi o processo de recolha de tanta informação?

WV- A investigação teve um primeiro período que foi, basicamente, entrevistas com o biografado, em que pôde relatar a sua vida. Mas só isso não era suficiente. Tínhamos de nos estribar em documentos e evidências. Assim, investigámos em vários jornais da praça. Falo no jornal Expresso das Ilhas, A Semana, A Nação, mas, sobretudo, Voz di Povo, jornal onde o Sr. Orlando era colunista, a par de Antero Barros, que foi também um dos homens importantes da história do desporto cabo-verdiano, sobretudo no contexto do movimento olímpico. E, a partir dali, fizemos um trabalho fundamentalmente com o Sr. Orlando, sobre os anos 1960. Foi uma investigação profunda, tivemos dificuldades em encontrar fontes, mas, basicamente, foram fontes de jornais, fotos, relatos de pessoas na época, por exemplo, o relato do Sr.  Indalécio Antunes, que é um senhor muito conhecido na cidade da Praia, e também o relato do Sr. Salvador Hopffer.

VA – Quais as descobertas que mais o surpreenderam durante esse processo de recolha de informação?

WV – Penso que a maior parte dos jovens não sabe o trabalho indelével que este homem fez por Cabo Verde. E não é um trabalho local, zonal, mas um trabalho nacional que teve várias repercussões, falo sobretudo das Aldeias S.O.S., dos jardins infantis, e não só. Sei que várias pessoas são gratas a este homem que trabalhou incansavelmente e acabou por deixar muito contributo. O trabalho que fez na EMPA é comentado até hoje, o trabalho também que ele produziu no Instituto Cabo-Verdiano de Solidariedade, nos transportes públicos na cidade da Praia e ilha de Santiago. Foi uma excelente surpresa a magnitude deste homem, e que poucos da minha geração conhecem, mas no livro está timbrado o papel que Orlando Mascarenhas teve na nossa sociedade.

VA – Como conseguiu equilibrar o rigor histórico com uma abordagem humana?

WV – O rigor histórico foi conseguido através dos jornais. Quanto à interpretação que podemos fazer a partir dos mesmos jornais, normalmente, quando o investigador faz esse tipo de abordagem, tem de fazê-lo de forma muito neutral e eu tentei não entrar muito no campo da política, mas centralizar-me no homem.

VA – Há alguma fase da vida do Sr. Orlando Mascarenhas que o William considera fundamental para compreender quem ele é?

WV – No decorrer da investigação tomei conhecimento de momentos importantes para o Orlando e que moldaram o homem, sobretudo a infância, que viveu com determinadas limitações. O maior exemplo é a criação da EMPA, quando Cabo Verde se encontrava numa situação de país inviável e tudo era necessário. Não posso também deixar de falar também do ICS, onde fez uma abordagem importante com as crianças – de rua ou que tinham dificuldades para sobreviver – e na formação de quadros na serrilharia, agricultura, o que acabou por mexer com a vida de muitos cabo-verdianos e ter um impacto naquelas vidas. No desporto esteve renomeação de Sporting Cabo Verde para Sporting Clube da Praia, que é o segundo clube mais titulado de Cabo Verde e com mais participações internacionais na história de Cabo Verde. Daí que, sim, para mim, Orlando Mascarenhas é uma relíquia.

VA – O que é que, enquanto autor do livro, gostaria que as pessoas sentissem ao finalizar a leitura do livro?

WV – Penso que deveriam querer aprofundar o estudo sobre o período que traço no livro, entre 1975 e 1992. Nem tudo era tão mau como muitos fazem querer, houve progresso, desenvolvimento, investimento na educação, investimento nas crianças de Cabo Verde e no setor desportivo. Hoje, a seleção nacional masculina já está no Mundial, a seleção feminina vai ao CAN, os escalões de base são medalha de ouro. Para isso acontecer foi preciso muito trabalho e no livro está relatado o trabalho que o Orlando Mascarenhas fez como presidente da Associação Regional de Futebol de Santiago, do Sporting e da Federação Cabo-Verdiana de Futebol. Não podemos analisar de forma pouco esclarecedora e até opinar publicamente sem conhecer de fundo a época. Também nas épocas difíceis existem progressos e investimentos. 

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