“Os cabo-verdianos devem contar as suas estórias tradicionais”
Karolina Abramowicz apaixonou-se pela língua cabo-verdiana antes mesmo de pisar o arquipélago. A polaca, formada em gestão e marketing, traduziu histórias infantis universais para crioulo e, no Dia Internacional da Língua Materna que hoje se assinala, apela aos cabo-verdianos, a partir da Polónia, para investirem também nas estórias escritas do próprio folclore.
Por: Teresa Sofia Fortes
Voz do Archipelago (VA) – Como nasceu a sua ligação com o Cabo Verde e com a língua cabo-verdiana, em particular?
Karolina Abramowicz (KA) – Esta história já tem mais de 20 anos. Estudei em Portugal e vivi numa residência estudantil onde também moravam muitos cabo-verdianos e foi nessa época que aconteceu o meu primeiro contato com a língua crioula. Na altura, eu não entendia a língua, mas, com a ajuda de alguns amigos, conseguia entender algumas palavras. Queria aprender a língua, mas não foi possível naquela altura, não havia cursos. O único curso que eu encontrei era em Lisboa e eu estudava em Braga, não era possível fazer uma viagem de comboio de três horas até Lisboa uma vez por semana apenas para uma aula. Entretanto, voltei para a Polónia. A pandemia de covid-19 veio abrir uma porta digital, e eu consegui encontrar uma professora que dava aulas online. E, assim, aprendi a língua cabo-verdiana com a professora Ana Josefa Cardoso, que é cabo-verdiana e vive em Portugal. Assim, o meu sonho de aprender crioulo, que nunca esqueci e sempre procurei realizar, se concretizou 20 anos depois
VA – E um dia veio conhecer Cabo Verde.
KA – Sim, já fui a Cabo Verde três vezes. Consigo ir, pelo menos, uma vez por ano.
VA – Reparei que entre os audiolivros em crioulo já estão disponíveis Sinderela, Kapuxinhu Burmedju, Tres Porkinhu e também Branka di Nevi. Mas há mais, certo?
KA – Sim, são 10 livros de histórias conhecidas internacionalmente que, com toda a certeza, as crianças cabo-verdianas também conhecem, mas em português, e que eu traduzi para a língua cabo-verdiana, tais como Tres Porkinhu, Sinderela, Branka di Nevi, Kapuxinhu Burmedju, Gatu di Bota, Patinhu Feiu, Djon ku Maria, Djon y Fixon Majiku, Rapunzel e Prinseza y Ervilha -, entre outros.

VA – Por que escolheu essas histórias, e não outras?
KA – Quando eu estudo uma língua estrangeira, eu começo por ler livros que são para crianças, porque a linguagem é mais fácil, não gosto de começar com coisa pesada para não me assustar com vocabulário complicado. O problema com o crioulo é que, na época em que já sabia o suficiente para poder ler, não havia livros para crianças em crioulo. Assim, para praticar crioulo, eu decidi traduzir as histórias que eu conhecia da minha infância, a minha professora revisou as traduções. Decidimos publicá-las para outras pessoas que querem estudar crioulo, mas, principalmente, para as crianças cabo-verdianas poderem começar a ler em crioulo cabo-verdiano.
VA – Mas há histórias para crianças tipicamente cabo-verdianas e que há séculos são contadas na língua cabo-verdiana. Não pensou em editar audiolivros dessas histórias?
KA – Não. Eu sou polaca e eu quero aprender tudo sobre Cabo Verde, mas, considero que é trabalho dos cabo-verdianos mostrar a sua cultura para o mundo inteiro. Então, os cabo-verdianos devem escrever as suas histórias tradicionais para eu poder aprender. Eu não posso fazer o que não conheço. Ouvi das histórias de Lobo e Chibinho, mas não conheço. Portanto, não posso fazer um projeto com essas histórias.
VA – Como nasceu e se desenvolveu o projeto?
KA – Este projeto começou como um projeto pessoal, e só meu, mas cresceu e, neste momento, é um projeto de muitas pessoas. Fiz uma parceria com a Rádio Educativa [RTE – Rádio e Tecnologias Educativas], que disponibilizou o estúdio para as gravações dos audiolivros, mas eu precisava também encontrar pessoas que pudessem disponibilizar tempo e voz para gravar, daí que lancei um desafio nas redes sociais, buscando pessoas que estivessem disponíveis para gravar audiolivros. E, felizmente, muitas pessoas quiseram participar. Fiz o casting de vozes e consegui encontrar dez mulheres maravilhosas, que são de várias ilhas, mas vivem neste momento na cidade de Praia ─ Analina Rocha, Kleirine Carvalho, Deyna Carvalho, Albertina Silva, Stefany de Pina, Ângela Gonçalves, Yolanda Tavares, Paula Fortes, Kiara Batalha e Alice Moreira ─ que, entre o fim de agosto e início de setembro 2025 gravaram as histórias.
VA – Mas tudo começou após um primeiro contacto com a Adel Costa?
KA – Não! Primeiro gravámos os audiolivros, só depois decidi traduzi-los para língua gestual. A ideia de colaboração com a Adel Costa surgiu através da Escola Nova Assembleia, situada em Achada de Santo António, na cidade da Praia. Em 2024, eu fiz a apresentação do meu projeto Stória pa Mininus naquela escola e os alunos fizeram uma dramatização da história “Os Três Porquinhos”. Através da responsável pela escola, Samira Krups, entrei em contato com a Adele, que adorou a ideia de graváramos audiolivros. Até agora conseguimos gravar quatro histórias. O plano é gravar mais, gravar todas, mas infelizmente está um pouco difícil porque ninguém ganha dinheiro com este projeto. É tudo voluntário, e tudo é feito no nosso tempo livre.
VA – Isto quer dizer que o projeto não conta com financiamento do Ministério da Educação do Cabo Verde ou de qualquer outra entidade pública?
KA – O projeto não conta com nenhum financiamento. Eu já enviei vários pedidos ao Ministério da Educação e também ao Ministério da Cultura e Industrias Criativas e ainda às várias grandes empresas que operam em Cabo Verde, mas ou não recebi nenhuma resposta, ou recebi resposta negativa, não estão interessados em suportar este projeto. Assim, o projeto está de pé graças à dedicação das pessoas que gostam do Cabo Verde e querem ajudar o país. Há muitos europeus e cabo-verdianos na diáspora que me dão dinheiro para que eu possa imprimir os livros e mandá-los para Cabo Verde, mas tudo isso é financiamento privado.
VA – Disse há pouco que as pessoas que gravaram os audiolivros, embora residam todas na cidade da Praia, são oriundas de diferentes ilhas. Isso quer dizer que nos audiolivros ouvimos diferentes variantes do crioulo?
KA – Não. Eu só falo a variante de Santiago, daí que só posso traduzir para a variante de Santiago. As pessoas que gravam os audiolivros são do Maio, Fogo, de Santiago e Santo Antão, mas todas falam a variante de Santiago nos audiolivros. O meu sonho é também produzir audiolivros na variante de São Vicente, mas, infelizmente, eu não falo esta variante. Se alguém quer colaborar, fazendo a tradução das histórias para essa variante, é bem-vindo/a, eu ajudarei em tudo que estiver ao meu alcance.

VA – Os audiolivros são, no entanto, apenas uma das vertentes deste seu projeto.
KA – Sim, é verdade. Há os audiolivros de que já falei, mas também há livros digitais, livros em papel, livros para colorir e também videolivros, que são compostos pelo áudio e texto das histórias, assim a criança pode ouvir e ler ao mesmo tempo, o que ajuda a aprender como pronunciar as palavras ou como escrever as palavras que ouve. O produto mais recente são os videolivros com língua gestual.
VA – Como podemos adquirir qualquer uma destas obras?
KA – Todos os produtos digitais são gratuitos. Através do site (https://linktr.ee/Storia_pa_mininus) pode-se ler ou ouvir as estórias gratuitamente (basta ter internet um telemóvel ou computador). Mas os livros impressos são pagos, porque existe o custo de impressão e envio via correio físico, por isso se alguém quiser comprar, pode entrar em contato comigo e falaremos sobre os detalhes. Quem vive na ilha de Santiago, pode comprar os livros impressos na Biblioteca Nacional, na cidade da Praia. Os que moram nas outras ilhas de Cabo Verde, podem entrar em contacto comigo e combinamos o envio via correio.
VA – Já concretizou todas as fases deste projeto ou há ainda algo com que sonhou, mas ainda não concretizou?
KA – Eu sonhei com um projeto pequeno só para mim, mas que, ao concretizar-se, tornou-se enorme, até agora eu consegui imprimir quase 3500 livros que estão disponíveis, ou vão estar disponíveis em breve, em mais que 200 escolas, bibliotecas, museus, em três continentes, nomeadamente países como Cabo Verde, Portugal e Estados Unidos da América. Portanto, estou muito surpreendida com a forma como o projeto cresceu tão rápido. Neste momento, não quero fazer mais traduções, o meu objetivo agora é conseguir dinheiro para poder imprimir mais livros, para chegar a mais escolas em Cabo Verde.