A neurologia é uma das especialidades médicas com maior impacto na qualidade de vida das populações, particularmente em Cabo Verde, país onde o Acidente Vascular Cerebral (AVC) continua a ser a principal causa de morte. Em entrevista ao Voz do Archipelago, o neurologista Darius Lima faz um retrato do estado atual da neurologia em Cabo Verde, destaca os avanços alcançados nos últimos anos e chama a atenção para os desafios estruturais ainda existentes. Ao mesmo tempo, sublinha a importância da prevenção, da informação e do diagnóstico precoce, num contexto em que muitas doenças neurológicas estão diretamente ligadas ao estilo de vida.
Voz do Archipelago (VA) – Primeiro, explique-nos em que consiste a neurologia e que áreas abrange esta especialidade?
Darius Lima (DL) – A neurologia é a especialidade médica que estuda o sistema nervoso central e o sistema nervoso periférico, estamos a falar do cérebro, da medula espinhal e dos nervos. Dentro desta área tratamos várias doenças, como as dores de cabeça, que são das que mais vemos nas consultas e nas urgências, mas também o AVC, a epilepsia, as convulsões, as doenças neuromusculares e outras patologias neurológicas. É uma área muito vasta e, ao mesmo tempo, muito complexa, porque cada doença tem múltiplas causas, manifestações e abordagens terapêuticas. Exige muita investigação clínica, observação e acompanhamento para se conseguir chegar a um diagnóstico correto
O que o levou a escolher a neurologia como área de especialização?
A neurologia sempre me fascinou. É uma área muito ligada à investigação e à procura constante de respostas. Sempre gostei de estudar, de investigar e de tentar compreender melhor os fenómenos clínicos. Na neurologia, muitas vezes não conseguimos chegar a um diagnóstico imediato, o que a torna uma área misteriosa e desafiante. Durante o percurso académico e os estágios, cheguei a ponderar outras especialidades, mas no final percebi que a neurologia reunia tudo aquilo que procurava: complexidade, investigação contínua e um impacto muito direto na vida dos pacientes. Foi uma escolha consciente e que continuo a considerar acertada.
Como descreve o estado atual da neurologia em Cabo Verde?
Neste momento, somos quatro neurologistas a trabalhar no Hospital Universitário Agostinho Neto. É um número reduzido para responder às necessidades do país. Temos também colegas que já concluíram a especialidade, mas que ainda aguardam integração no Sistema Nacional de Saúde. Um dos grandes desafios é a escassez de neuropediatras. Atualmente, existe apenas um no país, o que nos obriga, enquanto neurologistas do adulto, a dar também resposta a casos pediátricos. Temos muitas crianças com epilepsia, doenças degenerativas e doenças neuromusculares graves que precisam de acompanhamento especializado. Apesar das dificuldades, registámos avanços importantes. Um dos mais significativos foi a implementação do tratamento do AVC isquémico, iniciado em 2022. Cabo Verde é um dos poucos países africanos a realizar este tratamento, que permite reduzir de forma significativa as sequelas nos pacientes quando aplicado atempadamente.
VA – Quais são atualmente as principais doenças neurológicas que afetam a população cabo-verdiana?
DL – O AVC ocupa o primeiro lugar. É a principal causa de morte em Cabo Verde, ultrapassando mesmo o cancro. Embora seja tradicionalmente associado a pessoas mais idosas, temos observado um aumento preocupante de casos em pessoas mais jovens. Este aumento está diretamente relacionado com fatores de risco como a hipertensão arterial, a diabetes, a obesidade, o sedentarismo, o consumo excessivo de álcool e o uso de drogas. O álcool, em particular, tem uma ligação muito forte com a hipertensão e, consequentemente, com o AVC. As drogas, como a cocaína, também podem provocar alterações cerebrais graves e levar ao AVC. Além do AVC, as dores de cabeça e a epilepsia são muito frequentes, tanto nas consultas externas como nos serviços de urgência.
VA – Existem ainda mitos associados à neurologia em Cabo Verde?
DL – Sim, existem vários. Um dos mais comuns é a ideia de que procurar um neurologista significa ter uma doença grave ou um problema mental. Muitas pessoas evitam a consulta por medo de um diagnóstico sério ou por receio de serem associadas a problemas psicológicos. A neurologia não é sinónimo de “doença da cabeça” no sentido pejorativo. Trata-se de cuidar do cérebro e do sistema nervoso. Este medo acaba por atrasar o diagnóstico e o tratamento, o que pode agravar o estado clínico dos pacientes.
VA – Tem-se registado um aumento de casos de AVC em jovens. Que recomendações deixa para prevenir esta situação?
DL – O AVC era, no passado, uma doença sobretudo associada à população idosa, mas isso mudou nos últimos 10 a 15 anos. Hoje vemos cada vez mais casos em pessoas entre os 30 e os 50 anos. A principal recomendação é a adoção de um estilo de vida saudável. Alimentação equilibrada, prática regular de atividade física, redução ou eliminação do consumo de álcool, não fumar e evitar drogas são medidas fundamentais. Muitas vezes as pessoas pensam que exercício físico tem de ser musculação ou ginásio, mas a caminhada regular é um dos exercícios mais eficazes na prevenção do AVC. É igualmente importante controlar a tensão arterial, a diabetes e o peso corporal, mesmo em idades jovens. Embora existam fatores genéticos que não podemos modificar, isso não significa que a pessoa vá necessariamente ter um AVC.
VA – A população está hoje mais informada sobre saúde neurológica?
DL – Estamos num patamar melhor do que há alguns anos. Hoje temos mais informação disponível nos centros de saúde, nos hospitais, na rádio, na televisão e nas plataformas digitais. Existem também datas alusivas que ajudam a sensibilizar a população, como o Dia Mundial do AVC, assinalado a 29 de outubro. No entanto, ainda é necessário reforçar a literacia em saúde e combater a desinformação. Muitas pessoas acabam por acreditar em mitos ou teorias sem base científica, em vez de procurarem informação credível e acompanhamento médico.
VA – Que mensagem deixa, sobretudo aos jovens, para prevenir doenças neurológicas como o AVC?
DL – A principal recomendação é adotar um estilo de vida saudável: alimentação equilibrada, prática regular de atividade física, redução do consumo de álcool, não fumar e evitar drogas. A caminhada, por exemplo, é um exercício simples e muito eficaz. Também é fundamental controlar a tensão arterial e a diabetes, mesmo em idades jovens.