Pega a carteira de identidade da Norma e a coloca na bolsa. Prepara-se para sair. A noite é sua, de superlua manchada de sangue. Carrega um pouco mais na maquiagem, veste a saia curta de couro sobre a meia-calça rendada. Acaricia a perna tatuada de memórias, iluminadas pela luz fraca do abajur, antes de calçar as sandálias de plataforma para aumentar um pouco a altura. Lembra-se de ser chamada, carinhosamente, de baixinha. Sorri e, em seguida e por alguns instantes, deixa-se invadir pela melancolia.
Entra no bar, onde a música ao vivo mistura-se e se confunde com a fumaça de cigarro e olhares penetrantes, interrogadores, lascivos. Tira o colete de couro. Bebe devagar o conhaque barato, coloca o copo na mesa. Observa quando se faz o intervalo e o trio deixa momentaneamente o tablado semicircular, três degraus acima da pequena pista de dança. O apresentador conta piadas e brinca com o público. Pergunta se alguém na plateia arrisca-se a substituir, por alguns minutos, a crooner.
Norma percebe que é a sua hora. Levanta-se da mesa e se aproxima do diminuto palco. Ele pergunta o que vai cantar. Sussurra em seu ouvido a informação. Sobe os degraus que imagina levarem ao desconhecido e observa o apresentador conversar rapidamente com o pianista. Ele não se faz de rogado e dedilha de improviso os primeiros acordes da música. Ela lança em sua direção um sorriso de cumplicidade, quase debochado, levanta o indicador num movimento preciso para dar o tom e, como uma estrela perdida na noite, encara a plateia na penumbra. Aos primeiros acordes, sua voz ecoa pelas sombras, vinda de um lugar remoto onde a dor e o lamento se fundem no último apelo:
Ah meu amor não vá embora
Vê a vida como chora, vê que triste essa canção.
Eu te peço, não te ausentes,
Pois a dor que agora sentes, só se esquece com o perdão.
Oh, meu amor se tu soubesses,
Como é triste a minha prece, como dói a solidão.
Eu te suplico, não destruas, tantas coisas que são tuas,
Por um mal que já paguei!
Oh meu amor tu voltarias, e de novo cairias,
A chorar nos braços meus.
Passado o momento de perplexidade, o público aplaude calorosamente, enquanto alguns se levantam, pedindo bis. Ela olha para o apresentador sem saber o que fazer, enquanto ele pede ao pianista para voltar a tocar. Desta vez, a voz brota das nascentes em seu peito, misturando versos com improvisos que dilaceram alma, segurando um pouco mais as notas em tons que misturam o som cristalino de cristais com a rouquidão embriagada de angústia. Desce do palco sob aplausos, gritos e convites despudorados, pega a bolsa e o colete e deixa o bar.
Caminha pela calçada envolta na tênue aragem que embaça a luz vinda dos postes. A Norma que quis esquecer para sempre está renascendo, brotando dentro de si como uma vaga de desejo que remói as entranhas, toma conta dos pensamentos, invade os vasos sanguíneos, algema sua vontade. Não tem como resistir ao uivo e langor dessa loba errante. Ela está de volta para acompanhar sua solidão.
O carro para e o motorista, com ar de cafajeste, abre a porta. Entram no apartamento despindo-se, agarrando-se. Entregam-se ao sexo selvagem. O dia está amanhecendo quando pega um taxi para voltar para casa. Olha-se no espelho, passa a mão no rosto, observa as manchas do rímel e da sombra ao redor dos olhos escorrendo pelo rosto com o suor. Limpa o que restou da maquiagem com um pedaço de papel higiênico. Lava o rosto na água fria. Contempla o semblante cansado de Norma e Helena, almas siamesas. “Sim, nós duas”, sorri.