Sexta-feira, 23 Janeiro 2026

Em tom de opinião

Maria Graça: Uma Porta Fecha-se? Construamos uma Janela!

Nesta semana, Cabo Verde foi confrontado com uma notícia que — à primeira vista — poderia parecer apenas mais um obstáculo à nossa mobilidade histórica: a suspensão, pelo Governo dos Estados Unidos, do processamento de vistos de imigração para cidadãos de 75 países, entre os quais o nosso arquipélago. A medida, que entrou em vigor a partir de 21 de janeiro e foi justificada por Washington como parte de uma revisão das suas regras de imigração, interrompe temporariamente os pedidos de vistos destinados à fixação permanente nos EUA.

Mas o que para muitos pode soar como um revés profundo, deve ser lido — e debatido — como um verdadeiro ponto de inflexão para a nossa forma de pensar mobilidade, desenvolvimento e o valor da diáspora cabo-verdiana.

Há décadas, a ligação entre Cabo Verde e os Estados Unidos não é apenas política ou diplomática — ela é humana, dinâmica e vital. Cerca de meio milhão de cabo-verdianos e seus descendentes residem naquela nação, mantendo laços familiares, culturais e económicos que atravessam gerações. E apesar de esta medida não afetar vistos temporários de turismo ou negócio, a suspensão dos vistos de imigração lança uma pergunta inevitável: será justo para um país soberano que a nossa mobilidade dependa de critérios e agendas definidos fora da nossa soberania?

A resposta afirmativa que muitos líderes políticos ainda procuram dar — uma negociação diplomática intensa e apelativa para sair da lista — é compreensível. Mas não basta negociar apenas para regressar ao status quo anterior. É tempo de repensar, com ousadia, o lugar de Cabo Verde no século XXI, o significado de mobilidade e o papel central da sua diáspora no projeto nacional.

Porque a diáspora não é um “recurso” externo sujeito a vontades alheias: ela é parte do tecido social e económico do país. Se uma política estrangeira pode decidir unilateralmente limitar caminhos de imigração, então devemos inverter a narrativa: não é apenas a diáspora que precisa de mobilidade — é Cabo Verde que precisa consolidar caminhos de circulação, investimento, troca de competências e circulação intelectual que não dependam de terceiros.

Que tal, então, fazer deste momento um catalisador para:

  • Investir em mobilidade intra-africana e lusófona, reforçando laços com países que valorizam circulação de pessoas e talento?
  • Criar programas de cooperação que tornem Cabo Verde um polo regional de intercâmbios académicos e profissionais, reduzindo a dependência de destinos extra-continentais?
  • Fortalecer a participação política e económica da diáspora na construção de oportunidades dentro do arquipélago, para que a migração não seja apenas um ato de saída, mas uma ponte de ida e volta?

Sim, negociar para proteger os direitos dos nossos cidadãos é crucial — e deve continuar — mas não podemos reduzir a mobilidade aos termos de uma política alheia. Devemos reconhecer que, se uma porta se fecha, podemos erguer outras janelas e pontes que ampliem horizontes e garantam que o sonho cabo-verdiano não permaneça à mercê de decisões externas.

Este episódio revela uma verdade simples: não podemos deixar que o destino de uma nação seja condicionado por regras que não escrevemos. Devemos, pelo contrário, transformar cada limitação numa oportunidade de reforçar a nossa soberania, a nossa rede de cooperação global e a confiança na capacidade da nossa própria gente.

Porque a diáspora é mais do que passageiros num avião rumo a um país estrangeiro — é parte da alma política, económica e cultural de Cabo Verde. E esse é um património que ninguém, em nenhum escritório estrangeiro, pode suspender.

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