Estas datas não são meras efemérides. Representam escolhas fundadoras, conquistas duramente alcançadas e uma visão de país construída com sentido de responsabilidade histórica. São, em larga medida, os alicerces invisíveis da liberdade que hoje se exerce e da democracia que se pratica.
Ainda assim, à medida que o tempo avança, impõe-se uma interrogação discreta, mas essencial: de que forma esta herança está a ser transmitida às novas gerações? A história da luta pela independência, com a sua densidade humana e política, surge muitas vezes de forma fragmentada no percurso educativo. O advento da democracia, enquanto processo vivido e conquistado, raramente é apresentado como experiência histórica concreta, para além do seu enquadramento cronológico.
Num país jovem, esta ausência de profundidade não é indiferente. A liberdade, quando se afasta do seu contexto histórico, social e humano, deixa de ser compreendida como conquista e passa a ser sentida como condição natural. Desliga-se do esforço coletivo que a tornou possível, dos riscos assumidos, das escolhas difíceis e das renúncias que a precederam. Nesse processo silencioso, transforma-se num dado adquirido — algo que parece existir por si, sem história, sem custo e sem responsabilidade associada.
Perdendo o seu contexto, a liberdade deixa também de ser reconhecida como frágil. Esquece-se que foi construída num tempo concreto, por pessoas concretas, em circunstâncias muitas vezes adversas, e que, por isso mesmo, exige vigilância permanente. Aquilo que é herdado sem memória tende a ser vivido sem cuidado.
Quando a liberdade é percecionada apenas como um direito formal, e não como resultado de um percurso coletivo, enfraquece-se a consciência cívica que a sustenta. A participação diminui, o compromisso esbate-se e o exercício democrático passa a ser encarado como rotina, não como responsabilidade. A liberdade permanece, mas perde densidade e sentido.
É por isso que a contextualização histórica não é um detalhe académico, mas um elemento central da cidadania. Conhecer o contexto da liberdade — como nasceu, quem a construiu, em que condições e com que sacrifícios — é o que permite reconhecê-la como valor vivo e não como privilégio garantido. Sem esse enquadramento, corre-se o risco de a usufruir sem verdadeiramente a compreender.
A mesma lógica se aplica à democracia.
Quando a democracia é entendida apenas como um conjunto de regras formais — votar, eleger, alternar — corre o risco de se tornar um gesto mecânico, repetido sem reflexão. Reduzida a procedimento, perde a sua dimensão mais profunda: a de um processo vivo, construído diariamente através da participação, do debate informado, da responsabilidade cívica e do respeito pelas diferenças.
A democracia não se esgota no ato eleitoral. Ela existe na forma como as instituições funcionam, na transparência das decisões, na qualidade do diálogo público e na capacidade de a sociedade civil se organizar, questionar e propor. Quando estes elementos são esquecidos, o regime mantém a forma, mas enfraquece no conteúdo.
Perder a noção da democracia como construção coletiva é também esquecer que ela exige cuidado permanente. Não é um estado definitivo, alcançado de uma vez por todas, mas um equilíbrio delicado entre direitos e deveres, entre liberdade e responsabilidade. Quando essa consciência se dilui, a participação tende a diminuir e o espaço público torna-se mais vulnerável à indiferença e ao desencanto.
É por isso que compreender a democracia para além dos seus procedimentos formais é essencial. Só assim ela se mantém viva, capaz de se renovar e de responder aos desafios de cada tempo. Sem essa compreensão, a democracia continua a existir — mas deixa de ser plenamente exercida.
Janeiro, enquanto tempo de balanço e de recomeço, oferece uma ocasião propícia para pensar a memória não como evocação nostálgica, mas como elemento estruturante da cidadania. Ensinar a história não é fixar narrativas, nem cristalizar visões únicas. É, antes, criar condições para a compreensão, para o pensamento crítico e para a ligação consciente entre passado e presente.
A escola, as instituições culturais, os meios de comunicação e o espaço público partilham aqui uma responsabilidade silenciosa, mas decisiva. A memória coletiva constrói-se na continuidade, na diversidade de vozes e na capacidade de contextualizar os grandes marcos históricos à luz dos desafios contemporâneos.
Num tempo marcado pela aceleração e pela urgência do imediato, o esquecimento pode insinuar-se de forma quase impercetível. Ainda assim, a forma como um país escolhe lembrar revela muito sobre a forma como escolhe avançar. A memória cuidada confere profundidade à democracia, densidade ao debate público e solidez às escolhas coletivas.
Talvez este mês de janeiro, tão simbolicamente carregado, seja um convite sereno a reafirmar que a liberdade e a democracia não se esgotam na celebração das datas que as consagraram. São patrimónios vivos, que exigem compreensão, transmissão e atenção continuada. Porque um país que conhece o seu percurso caminha com mais clareza — e um país que cuida da sua memória protege, de forma silenciosa, o seu futuro.