Cabo Verde não é, objetivamente, o pior país para empreender porque apresenta vantagens institucionais relevantes: estabilidade democrática, previsibilidade política e um ambiente social relativamente pacífico. Estes fatores constituem ativos importantes e não devem ser subestimados num mundo onde a instabilidade política continua a ser um dos maiores riscos para o investimento.
Contudo, será igualmente errado ignorar as dificuldades concretas que o sector empresarial enfrenta no dia a dia.
O primeiro desafio é estrutural. Cabo Verde é um país pequeno, arquipelágico e com um mercado interno limitado. Com pouco mais de meio milhão de habitantes, a escala económica é inevitavelmente reduzida. Empresas que dependem exclusivamente do mercado interno acabam rapidamente por atingir o teto natural de crescimento imposto pela dimensão da economia cabo-verdiana. Neste contexto, o País torna-se particularmente difícil para negócios que não conseguem ou não sabem projetar-se para além das suas fronteiras.
Mas os constrangimentos não se limitam à dimensão do mercado. Um dos problemas mais sensíveis está relacionado com a estrutura dos recursos humanos no país. Cabo Verde investiu significativamente na educação ao longo das últimas décadas, e este é um mérito coletivo que deve ser reconhecido. Contudo, persistem lacunas importantes entre a formação disponível e as necessidades reais das empresas. Falta formação técnica especializada em várias áreas, e muitas empresas enfrentam dificuldades em encontrar quadros com competências específicas para funções de gestão, tecnologia, produção ou inovação.
A esta realidade soma-se um fenómeno preocupante de natureza cultural. Em certos segmentos da sociedade foi-se difundindo, sobretudo entre os mais jovens, a ideia de que ganhar dinheiro é fácil e rápido, e que o sucesso material pode anteceder ou substituir a construção de competências sólidas. Este imaginário, alimentado por exemplos mediáticos de riqueza rápida ou por narrativas simplificadas sobre empreendedorismo, acaba por gerar expectativas pouco alinhadas com a realidade do trabalho, da disciplina e da construção gradual de valor.
Uma economia saudável não se constrói apenas com ambição financeira. Constrói-se, antes de mais, com competência, conhecimento, ética profissional e capacidade de gerar valor real. Quando a cultura do esforço, da aprendizagem e da excelência perde espaço para a ilusão de ganhos rápidos, o tecido produtivo fragiliza-se inevitavelmente.
Outro elemento estrutural que merece reflexão é o peso muito significativo do setor público na organização económica do país. O Estado continua a ser, direta ou indiretamente, um dos maiores empregadores de Cabo Verde. Esta realidade cria um desequilíbrio estrutural no mercado de trabalho. Em muitas situações, o setor público oferece níveis de estabilidade que o setor privado, sobretudo em economias pequenas e vulneráveis, tem dificuldade em acompanhar. O resultado é uma competição desigual por talento em que, frequentemente, os quadros mais qualificados acabam por procurar segurança institucional em vez de desafios empresariais.
Importa também refletir sobre uma prática que, embora muitas vezes passe despercebida, tem impacto direto no desenvolvimento do setor privado: a tendência de algumas instituições públicas para internalizar serviços que poderiam ser prestados por empresas privadas. Quando organismos públicos passam a integrar nos seus quadros funções que não fazem parte da sua missão institucional e que já são amplamente oferecidas pelo mercado — como por exemplo design gráfico, produção criativa, comunicação ou outros serviços especializados — o Estado acaba por ocupar espaços de atividade económica que não lhe pertencem. Numa economia pequena como a cabo-verdiana, cada oportunidade conta. Sempre que o Estado internaliza serviços que o setor privado está plenamente capacitado para prestar, reduz-se o espaço de crescimento das empresas, limita-se a inovação e enfraquece-se a capacidade do tecido empresarial de gerar emprego e dinamismo económico.
Num país que precisa de fortalecer o seu tecido empresarial, talvez seja legítimo perguntar se o papel do Estado deve ser o de produtor de serviços ou o de dinamizador de uma economia onde o setor privado tenha espaço real para crescer e prosperar.
Mais preocupante ainda é quando a relação entre administração pública e atividade económica passa a ser influenciada por critérios que não são exclusivamente técnicos ou institucionais. Quando decisões administrativas, oportunidades ou facilidades dependem de proximidades políticas ou de simpatias partidárias, o ambiente de confiança que sustenta o investimento começa inevitavelmente a deteriorar-se.
Num Estado democrático, a pluralidade política é natural e saudável. Contudo, a administração pública deve funcionar com base em princípios claros de neutralidade, previsibilidade e igualdade de tratamento. O empresário que investe, cria emprego e assume riscos, precisa sentir que opera num quadro institucional onde as regras são estáveis e aplicadas de forma equitativa, independentemente de posicionamentos políticos ou relações pessoais.
Quando essa perceção se enfraquece, instala-se um clima de incerteza que afeta tanto os empresários nacionais como potenciais investidores estrangeiros.
O desenvolvimento económico exige mais do que boas intenções políticas. Exige instituições fortes, uma administração pública profissional e uma cultura económica baseada no mérito, na competência e na criação de valor.
Cabo Verde construiu, ao longo de décadas, um património político raro no contexto africano: estabilidade democrática, paz social e credibilidade internacional. O desafio da próxima etapa histórica consiste em transformar esses ativos institucionais em motores reais de dinamismo económico.
Isso implica reformas claras: simplificação administrativa, justiça económica mais célere, políticas de formação alinhadas com as necessidades produtivas e um ambiente onde o setor privado seja visto não como adversário, mas como parceiro essencial do desenvolvimento.
Porque, no final, a prosperidade de um país não nasce apenas das políticas do Estado. Nasce, sobretudo, da liberdade de iniciativa, da confiança nas instituições e da capacidade de uma sociedade valorizar o trabalho, a competência e o mérito.