Hoje, 19, de março, celebra-se o Dia do Pai. O Voz do Archipelago foi ouvir especialistas, pais e cidadãos sobre o que está a mudar na paternidade, o que ainda falta mudar e sobre o legado que cada pai pode construir todos os dias.
Por: Renibly Monteiro
A psicóloga do Instituto Cabo-Verdiano da Criança e do Adolescente (ICCA), Aliana Carvalho, defende que a parentalidade responsável é o compromisso dos pais para garantir o essencial à criança e ao adolescente cuidado, proteção e desenvolvimento integral em todos os âmbitos da sua vida (físico, emocional, social e educacional), para que tenham um bom futuro.
A presença paterna é fundamental para o desenvolvimento emocional equilibrado de uma criança, advoga Aliana Carvalho. Segundo a psicóloga ao serviço do ICCA, quando o pai participa de forma ativa e consistente na vida dos seus filhos, estes crescem mais seguros de si mesmos, e com mais auto estima, e mais ferramentas para enfrentar os desafios da vida
“Ser pai responsável não é apenas pagar as contas, é ser presente, é ouvir, é criar laços que duram para sempre”, afirma a psicóloga. Ou seja, é o pai que leva o filho à escola, que sabe o nome dos professores e conhece os amigos dos seus filhos, que abraça, e que não precisa de dias especiais para dizer “amo-te”.
“Quando o pai está presente, a criança cresce melhor. E o pai também ganha”.

A presidente do Instituto Cabo-Verdiano para a Igualdade e Equidade do Género (ICIEG), Marisa Carvalho, diz, no entanto, que a presença paterna não é benéfica apenas para os filhos, é também para o próprio pai.
“Para o próprio homem, estar ausente é uma perda muito grande. Ele perde oportunidade de acompanhar de perto o crescimento dos seus filhos, e de os influenciar, de criar laços de familiaridade”, alega Marisa Carvalho, para quem o homem que não vê os seus filhos crescer carrega também uma lacuna afetiva muito grande”.
Mudar a mentalidade começa com pequenos passos
O sociólogo e investigador Redy Lima reconhece que a sociedade cabo-verdiana ainda tem desafios reais nesta área. “Temos dificuldade em mostrar amor, porque crescemos a pensar que demonstrar afeto é coisa de fracos, mas isso não é verdade. Cuidar não é ser menos homem. Cuidar é um valor”, reitera Redy Lima, que diz, entretanto, que já são visíveis algumas mudanças. Por exemplo, é cada vez mais frequente ver pais levarem os filhos aos serviços de saúde e à escola.
Para o sociólogo e investigador, “a maior revolução que pode existir é o homem tornar-se cuidador. Precisamos de mudar de mentalidade e entender que o cuidado dos filhos precisa ser partilhado entre o pai e a mãe”.
E quando os pais se separam?
A separação faz parte da vida de muitas famílias, mas Paulino Moniz, membro da direção da Rede Laço Branco, afirma que “mesmo estando separados, o casal deve preocupar-se em manter o bem-estar dos filhos em todos os setores da sua vida e coloca-los acima de qualquer conflito”.
Para Moniz, o pai e a mãe não precisam ser “melhores amigos”, mas devem manter uma boa relação para o bem dos filhos e, principalmente, devem resolver juntos os problemas que lhes dizem respeito. Uma opinião de que partilha a presidente do ICIEG, que reforça a ideia de que as relações entre adultos podem ser voláteis, mas os filhos são para toda a vida e o seu bem-estar deve ser o objetivo principal dos progenitores.
O melhor legado não custa dinheiro
Numa sociedade em que muitos pais ainda associam o seu papel ao sustento financeiro, Paulino Moniz propõe uma outra forma de pensar o legado paterno. “Muitas vezes, a preocupação é de deixar bens materiais. Mas o maior legado que um pai pode deixar ao filho é o amor, é aquilo que é para os seus filhos”, argumenta o dirigente da Rede Laço Branco.
Na mesma linha de raciocínio, a psicóloga Aliana Carvalho deixa uma mensagem a todos os pais: “Ser pai não é apenas cumprir com o sustento financeiro, é estar presente a nível físico e emocional, preocupar-se com o filho, escutá-lo”.
O que dizem os cabo-verdianos sobre a presença do pai na vida dos filhos
Perguntamos aos cabo-verdianos o que pensam sobre a importância da presença do pai na vida dos filhos, e a resposta foi unânime, e dá esperança. Joaquim foi direto ao ponto: “A participação do pai na vida dos filhos é importante, ele transmite liderança e contribui para a educação dos filhos”. Eunice, por sua vez, afirma que “o pai deve dar mais amor, mais carinho, mostrar presença e participar ativamente na vida dos seus filhos”. Já Cristiano admite que, fisicamente, não faz parte da vida dos filhos com frequência, mas, reconhecendo a importância da sua presença, procura manter contacto, apoiar e contribuir para o seu bem-estar.
O Dia do Pai é, acima de tudo, uma oportunidade para celebrar quem já exerce a sua parentalidade de forma responsável mas também para encorajar quem ainda está a aprender, e também para lembrar a todos que ser pai é uma das coisas mais bonitas da vida. Não é preciso ser perfeito, mas estar sempre presente. É preciso ouvir, e declarar amor aos filhos com palavras e com atitudes. É dizer “eu estou aqui”, dando atenção e tempo de qualidade.