Quinta-feira, 19 Fevereiro 2026

A análise de Alex Sgreccia

União Europeia na encruzilhada

Começamos o ano impactados pelas iniciativas agressivas de Trump para manter a hegemonia dos Estados Unidos da América no mundo. Sabemos que são respostas de um império decadente que tenta, pela força e sem nenhum constrangimento, impor os interesses de Washington num momento em que o eixo da economia global está se deslocando para a Ásia e a China desponta como núcleo propulsor da economia mundial. O chamado Sul Global surge como novo arranjo geopolítico, com potencial para fortalecer um mundo multipolar, criando o cenário onde as disputas políticas se acentuam. Trump tem quebrado os alicerces do pacto político que assegurou uma nova ordem mundial depois da Segunda Guerra, questionando e esvaziando instituições criadas para promover a paz e a segurança, o multilateralismo e o livre comércio, a democracia e a soberania das nações, assim como a proteção ao meio ambiente.

A Aliança do Atlântico Norte (OTAN) e as relações econômicas que asseguraram o domínio dos Estados Unidos da América e da Europa como centro dinâmico do capitalismo e as bases de segurança mútua contra eventuais ameaças, têm sido ameaçadas, seja pelas tensões em relação à guerra na Ucrânia, seja pela investida de Trump contra a Dinamarca, país membro da OTAN, para se apropriar da Groenlândia. 

Por paradoxal que possa parecer, o recuo de Trump em relação à ameaça de usar a força para se apropriar da ilha se deu não apenas diante da reação dos países europeus, mas também da posição assumida por Moscou, a quem não interessa o conflito e a desestabilização na região do Ártico.

Diante da instabilidade criada com a guerra tarifária de Trump, a União Europeia tem buscado alternativas de mercado, mas também de relações políticas, como o acordo com o Mercosul e o acordo comercial com a Índia. Aproxima-se desta forma dos Brics, faz uma escolha estratégica de longo prazo com países do emergente centro dinâmico da economia mundial, enquanto se afasta, cautelosamente, dos Estados Unidos da América por considerar que não são mais parceiros confiáveis. O Canadá tentou recentemente o mesmo caminho, mas recuou no acordo comercial com a China, depois da pressão de Trump de impor ao país novas tarifas de 100%.

É neste contexto que devem ser avaliadas as medidas tomadas pelos países membros da União Europeia em relação á sua própria segurança. Não podem contar mais com a proteção incondicional dos Estados Unidos da América, essa relação foi rompida. As iniciativas envolvem uma elevação significativa dos gastos em defesa, como foi anunciado na recente reunião de cúpula da OTAN, desencadeando uma corrida armamentista no bloco. A segurança dos países membros da UE envolve, simultaneamente, a necessidade de encontrar uma solução negociada para o conflito na Ucrânia.

O secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, anunciou que os países-membros da aliança militar terão que aumentar os gastos mínimos em Defesa para, no mínimo, 5% do PIB, um aumento considerável nos níveis investidos atualmente. A União Europeia estaria disposta a criar um programa de empréstimo (150 bilhões de euros) para investimento em defesa, ao mesmo tempo que tornaria as regras de orçamento do bloco mais flexíveis para permitir que os países gastem mais sem violar os rígidos freios de déficit.

Como desdobramento de um possível acordo de cessar-fogo entre a Ucrânia e a Rússia, o presidente francês, Emmanuel Macron, anunciou que 26 países se comprometeram a mobilizar tropas na Ucrânia ou a estar presentes por terra, mar ou ar para fornecer essa segurança ao território ucraniano. A reação do governo russo foi imediata. A porta-voz do Ministério de Relações da Rússia declarou que não eram garantias para a segurança da Ucrânia, mas garantias de perigo para o continente europeu, acrescentando que Moscou não aceitaria a mobilização de tropas estrangeiras na Ucrânia “em nenhum formato”.  Ao comentar a proposta anterior de países europeus de enviar tropas para a Ucrânia, Putin teria dito: “Serão alvos legítimos.”

Tempos bicudos e desafios enormes para a União Europeia.

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