Os dois objetivos – eliminar a ameaça nuclear e derrubar o regime autoritário – voltam a ser usados como explicação para a nova agressão, prevalecendo ora um, ora outro no discurso de Trump. No entanto, não se justificam. O que houve foi o desrespeito ao direito internacional e a violação da soberania do Irã. Quase todas as lideranças mundiais, exceto aquelas alinhadas a Israel e aos Estados Unidos, reconhecem que não havia a ameaça iminente, assim como discordam de que a agressão militar possa ser argumento legítimo ou meio eficaz para derrubar o regime autoritário iraniano.
Israel é movido pelo objetivo estratégico de ampliar a área de segurança em seu entorno. Esse tem sido a razão para buscar aniquilar o Hamas em Gaza e o Hezbollah no sul do Líbano, de ter apoiado a queda do regime de Bashar Al-Assad na Síria, combater os rebeldes Houthis no Iemen, firmar acordos de cooperação militar com a Jordânia. O mesmo objetivo tem levado Israel a buscar um modus vivendi pacífico com as dinastias autoritárias que imperam a oeste do Irã na região.
A guerra ao inimigo externo tem sido usada para angariar apoio político e sustentar o governo que enfrenta crescente oposição interna e isolamento internacional. Destruir a capacidade do governo iraniano de produzir mísseis balísticos, drones e eventualmente armas nucleares passou a ser o principal objetivo de Netanyahu para completar o arco de proteção a Israel. O primeiro-ministro israelense pouco se importa com o caráter autoritário do regime dos aiatolás. Tem conseguido o apoio de Trump em sua aventura, cuja duração não é previsível, assim como poderá ser inesperado seu desdobramento.
As forças armadas iranianas dispararam mísseis balísticos e usaram drones para atingir alvos militares dos Estados Unidos em diversos países da região, danificar a principal refinaria saudita e destruir a embaixada estadunidense em Riad, chegando a atingir o Chipre. Conseguiram furar o bloqueio dos escudos antiaéreos israelenses, instaurando a insegurança em Telavive e outras cidades do país. Surpreenderam os agressores que haviam apostado na incapacidade de resposta militar à morte do Aiatolá Ali Khamenei e da cúpula das forças aramadas iranianas. Apesar da inesperada reação, trata-se de uma guerra assimétrica, não dá para comparar o poderio bélico das partes em conflito.
O Hezbollah entrou em campo e disparou mísseis contra Israel a partir do Sul do Líbano, levando Israel a atravessar novamente a fronteira para caçar o inimigo. O governo da Arábia Saudita ameaçou retaliar, se continuarem os ataques às suas refinarias. Países da região que abrigam bases militares dos EUA, como o Catar, Kwait, Bahrein, entre outros, temem a generalização do conflito e buscam, nos bastidores, sua abreviação. Não interessa colocar em risco a imagem de prosperidade e de possibilidades de empreendimento nas cidades com torres futuristas, como Dubai, nem interessa aos produtores de petróleo o fechamento do estreito de Ormuz, por onde passam 20% da produção mundial do petróleo, com a inevitável elevação do seu preço. Aliados tradicionais do Irã, China e Rússia movimentam-se cautelosamente. A eventual derrocada do regime iraniano e sua substituição por um governo pró-Estados Unidos poderá significar uma mudança substantiva no tabuleiro geopolítico regional e mundial.
No entanto, não basta fazer o jogo sujo, destruir a capacidade ofensiva, assassinar a cúpula política e militar do país e incitar a oposição a terminar o trabalho, assumindo o poder. Esta alternativa não parece estar no horizonte imediato. Alireza Arafi já foi nomeado líder supremo interino do Irã. Tem o apoio do exército, da poderosa Guarda Revolucionária e de parte significativa da população, unida a partir da agressão estrangeira e da comoção criada com a morte de suas lideranças. A oposição, por sua vez, é fragmentada, não tem uma liderança que possa se colocar como alternativa de poder.
Trump não parece ter uma estratégia clara ao se alinhar com Israel. Suas declarações sobre os objetivos dos ataques são confusas. Ora diz que pretende derrubar o regime autoritário, ora o objetivo passa a ser acabar com a ameaça que representa à segurança nacional. Está sendo questionado em várias frentes e por motivos diversos. Mente ao dizer que o Irã representa uma ameaça aos Estados Unidos. Não consultou, nem obteve a autorização do Congresso para atacar o inimigo. Desagrada a parte mais radical do MAGA (Make America Great Again – Faça os Estados Unidos grandes novamente), movimento que garantiu sua eleição e é sua principal base de apoio político e que o acusa de ter colocado Israel em primeiro lugar, em contradição com o lema America fisrt (Primeiro, os Estados Unidos). Não agrada igualmente setores mais à esquerda do Partido Democrata que o acusam de aventurar-se na guerra em parceria com Israel para desviar a atenção dos problemas que enfrenta no próprio país, como o escândalo de exploração sexual de menores no qual teria tido participação, a crescente impopularidade e a queda da aprovação do seu governo.
Por último e não menos importante, perde apoio no plano internacional. A agressão ao Irã desmoraliza sua proposta de Conselho Mundial da Paz. Países membros da UE, embora reconheçam a ameaça representada pelo possível armamento nuclear iraniano, condenaram a forma como foram desencadeados os ataques, por violar o direito internacional. O pronunciamento mais contundente, e com certeza mais lúcido, veio do primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez: “Rejeitamos a ação militar unilateral dos Estados Unidos e de Israel, que representa uma escalada e contribui para uma ordem internacional mais incerta e hostil.”