Quinta-feira, 05 Fevereiro 2026

A análise de Alex Sgreccia

Minneapolis, a resistência democrática

Apesar do inverno rigoroso, manifestações contra a política anti-imigração do governo Trump aconteceram nas principais capitais dos Estados Unidos no dia 31 de Janeiro. Tiveram como epicentro Minneapolis, a capital do estado de Minnesota. Não sem razão, a cidade tornou-se o símbolo da resistência democrática no país. Há semanas, a maioria da população trava uma luta renhida e pacífica contra a truculência do ICE – Serviço de Imigração e Controle da Alfândega, responsável pelo assassinato de dois manifestantes na cidade e pela caçada inclemente a imigrantes. O desfecho do embate entre a milícia armada de Trump e a resistência civil poderá ser decisivo para o futuro da democracia norte-americana. Apoiados por um sofisticado aparato de rastreamento de pessoas, capaz de identificar mensagens enviadas por celular, mesmo aquelas que são criptografadas ou que já foram apagadas, os milicianos encapuçados do ICE invadem residências, escolas e igrejas, prendem famílias inteiras ou usam crianças como iscas para chegar até seus pais.

Os imigrantes presos são encaminhados para centros de detenção em outros estados ou deportados sumariamente, desrespeitando direitos civis fundamentais assegurados pela Constituição Federal e decisões judiciais.

A população reage de forma surpreendente, acolhe o imigrante como “vizinho” – o termo “neighbor” é ressignificado politicamente, passando a incluir aquele que se encontra ameaçado – e tece com ele novos laços de solidariedade. Pessoas fazem compras e as entregam nas casas dos imigrantes para evitar que saiam à rua. Levam e trazem seus filhos das escolas para que não se exponham ao assédio da força repressora. Organizam manifestações cada vez mais surpreendentes, enfrentam a milícia, não arredam o pé quando um dos seus é vítima da bala assassina, continuam gritando: “ICE out” (Fora ICE, em tradução literal), conclamam a greve geral.

É disto que se trata, livrar a cidade, e todas as outras onde a força repressora de Trump se instalou com o pretexto inicial de manter a ordem e prender imigrantes ilegais e que agora volta-se contra os cidadãos que se opõem, vistos como “inimigos internos”. A reação ao desmando do governo central virou insurgência em defesa da cidade, locus onde a democracia se renova, erguendo uma barreira de centenas de milhares de pessoas contra o poder autoritário que a ameaça. Não é uma ameaça qualquer.

O governo Trump triplicou o contingente do ICE, assegurou-lhe um orçamento milionário até o fim de seu mandato, enquanto faz o contrário com instituições e políticas voltadas para necessidades básicas da população. Confere ao órgão, originalmente encarregado de proteger o país de crimes fronteiriços e combater a imigração ilegal, poderes paramilitares. Ao não frear seus abusos, mas aparentemente os estimular, subordinando o ICE ao seu comando, cria uma milícia privada, braço armado para ameaçar, disseminar o pânico e impor sua vontade, para além do regramento democrático. Este filme já vimos antes.

O que Trump faz em Minneapolis, assim como o faz ou ameaça fazer em outras cidades como Los Angeles, Washington-DC, Chicago e Nova York, não por acaso administradas por representantes do Partido Democrata, é o ensaio de seu projeto autoritário de poder. Permanecem no ar perguntas colocadas por analistas: A democracia nos Estados Unidos resistirá? O sistema de contrapesos entre os poderes será capaz de frear a sanha autoritária de Trump? Que papel a sociedade civil poderá exercer nesse processo? Trump usa a política externa para criar uma cortina de fumaça em torno das mudanças em curso no próprio país?

São questões complexas e interligadas, demandariam mais espaço para uma resposta consistente. A julgar pelo aspecto inconsequente das recentes intervenções no plano internacional – cerco à Venezuela e prisão de Maduro, sem conseguir o pretendido controle político do país; ameaça de tomar a Groelândia à força, seguida de recuo, diante da reação europeia; incapacidade de forjar o pretendido acordo de paz na Ucrânia, apesar da pressão exercida sobre Kiev; ameaça de derrubar o regime no Irã e recuo para negociar novo acordo nuclear – a primeira hipótese é de terem sido manobras diversionistas. Uma leitura mais acurada apontaria terem sido muito mais do que isso num cenário geopolítico em que o eixo da economia global está se deslocando para a Ásia, antigas alianças são desfeitas, outras são alinhavadas ensejando um mundo multipolar e tensionando o projeto hegemônico dos Estados Unidos.

Barreiras institucionais – federalismo, judiciário federal, congresso nacional – continuam operando como travas relevantes ao projeto político de Trump, cujas medidas têm provocado, no entanto, um processo lento e gradual de corrosão da democracia, apontando para um regime híbrido, democrático na forma e autoritário no conteúdo. Índices crescentes de reprovação e a possibilidade real de uma derrota para os Democratas nas eleições de novembro têm levado Trump a repensar sua estratégia. O futuro do país dependerá, em grande parte, do desfecho da luta que se trava nas ruas de Minneapolis.

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