Os imigrantes presos são encaminhados para centros de detenção em outros estados ou deportados sumariamente, desrespeitando direitos civis fundamentais assegurados pela Constituição Federal e decisões judiciais.
A população reage de forma surpreendente, acolhe o imigrante como “vizinho” – o termo “neighbor” é ressignificado politicamente, passando a incluir aquele que se encontra ameaçado – e tece com ele novos laços de solidariedade. Pessoas fazem compras e as entregam nas casas dos imigrantes para evitar que saiam à rua. Levam e trazem seus filhos das escolas para que não se exponham ao assédio da força repressora. Organizam manifestações cada vez mais surpreendentes, enfrentam a milícia, não arredam o pé quando um dos seus é vítima da bala assassina, continuam gritando: “ICE out” (Fora ICE, em tradução literal), conclamam a greve geral.
É disto que se trata, livrar a cidade, e todas as outras onde a força repressora de Trump se instalou com o pretexto inicial de manter a ordem e prender imigrantes ilegais e que agora volta-se contra os cidadãos que se opõem, vistos como “inimigos internos”. A reação ao desmando do governo central virou insurgência em defesa da cidade, locus onde a democracia se renova, erguendo uma barreira de centenas de milhares de pessoas contra o poder autoritário que a ameaça. Não é uma ameaça qualquer.
O governo Trump triplicou o contingente do ICE, assegurou-lhe um orçamento milionário até o fim de seu mandato, enquanto faz o contrário com instituições e políticas voltadas para necessidades básicas da população. Confere ao órgão, originalmente encarregado de proteger o país de crimes fronteiriços e combater a imigração ilegal, poderes paramilitares. Ao não frear seus abusos, mas aparentemente os estimular, subordinando o ICE ao seu comando, cria uma milícia privada, braço armado para ameaçar, disseminar o pânico e impor sua vontade, para além do regramento democrático. Este filme já vimos antes.
O que Trump faz em Minneapolis, assim como o faz ou ameaça fazer em outras cidades como Los Angeles, Washington-DC, Chicago e Nova York, não por acaso administradas por representantes do Partido Democrata, é o ensaio de seu projeto autoritário de poder. Permanecem no ar perguntas colocadas por analistas: A democracia nos Estados Unidos resistirá? O sistema de contrapesos entre os poderes será capaz de frear a sanha autoritária de Trump? Que papel a sociedade civil poderá exercer nesse processo? Trump usa a política externa para criar uma cortina de fumaça em torno das mudanças em curso no próprio país?
São questões complexas e interligadas, demandariam mais espaço para uma resposta consistente. A julgar pelo aspecto inconsequente das recentes intervenções no plano internacional – cerco à Venezuela e prisão de Maduro, sem conseguir o pretendido controle político do país; ameaça de tomar a Groelândia à força, seguida de recuo, diante da reação europeia; incapacidade de forjar o pretendido acordo de paz na Ucrânia, apesar da pressão exercida sobre Kiev; ameaça de derrubar o regime no Irã e recuo para negociar novo acordo nuclear – a primeira hipótese é de terem sido manobras diversionistas. Uma leitura mais acurada apontaria terem sido muito mais do que isso num cenário geopolítico em que o eixo da economia global está se deslocando para a Ásia, antigas alianças são desfeitas, outras são alinhavadas ensejando um mundo multipolar e tensionando o projeto hegemônico dos Estados Unidos.
Barreiras institucionais – federalismo, judiciário federal, congresso nacional – continuam operando como travas relevantes ao projeto político de Trump, cujas medidas têm provocado, no entanto, um processo lento e gradual de corrosão da democracia, apontando para um regime híbrido, democrático na forma e autoritário no conteúdo. Índices crescentes de reprovação e a possibilidade real de uma derrota para os Democratas nas eleições de novembro têm levado Trump a repensar sua estratégia. O futuro do país dependerá, em grande parte, do desfecho da luta que se trava nas ruas de Minneapolis.