Quinta-feira, 19 Março 2026

A análise de Alex Sgreccia

 Escudo das Américas

Trump se reuniu com líderes de governos de direita da América Latina e Caribe para, segundo ele, destruir cartéis e redes terroristas. Na prática, a coalização que resultou do encontro, chamada de Escudo das Américas, favorece a expansão da presença militar estadunidense na região. Foram convidados apenas líderes da direita e alinhados ao pensamento político de Trump, como Javier Milei, da Argentina, Nayib Bukele, de El Salvador, Daniel Noboa, do Equador, além dos presidentes da Bolívia, Costa Rica, República Dominicana, Honduras, Panamá, Paraguai, Guiana, Trinidad e Tobag e o presidente eleito do Chile, José Antonio Kast.

Segundo o presidente dos Estados Unidos, é inaceitável que o crime organizado tenha uma estrutura maior do que as forças de segurança de alguns desses países, devendo ser combatido com vigor. No entanto, o investimento na repressão armada ao crime organizado, que coloca lideranças de direita no mesmo campo e na mesma agenda subalterna a Washington, favorecendo ações militares conjuntas, foi questionado por especialistas da área de segurança.

Para eles, a proposta de derrotar carteis do crime organizado com o uso da força militar já se provou desastrosa, sendo um equívoco em relação à forma como as facções criminosas operam hoje. Elas não se concentram em um único território. Funcionam como redes transnacionais complexas, integradas a cadeias globais de comércio ilegal que conectam rotas de tráfico, sistema financeiro e tecnologias de comunicação. Desmontar esse sistema exige mais cooperação internacional em inteligência, integração de dados financeiros e logísticos, além de ações coordenadas para desestruturar as redes que alimentam o crime internacional.

Especula-se que a proposta de combater o crime organizado para justificar a presença militar estadunidense nos países da América do Sul e do Caribe é apenas uma cortina de fumaça para objetivos políticos de Washington na região.

 

Trump afirmou que a  coalizão “trabalhará em conjunto para promover estratégias que impeçam a interferência estrangeira no nosso hemisfério”, em referência velada à China. É disso que se trata, assegurar a hegemonia dos Estados Unidos, cuja ausência na região favoreceu a entrada chinesa, através de investimentos em infraestrutura e da diversificação das relações comerciais. Trata-se também de fazer o cerco a governos de esquerda como o Brasil, a Colômbia, o México e Cuba, não convidados ao convescote em Doral, na Flórida.

A ameaça de intervenção deu certo para eliminar a influência da China no Panamá, o uso da força serviu para derrubar o presidente Maduro e alinhar os militares venezuelanos aos interesses de Washington. Nem sempre se usa a força.  No Chile, grupos organizados utilizaram a inteligência artificial e o controle dos algoritmos   para difundir fake News nas redes sociais com o objetivo de erodir a imagem pública do presidente de esquerda Gabriel Boric, ao mesmo tempo em que trabalharam para eleger o direitista Antônio Kast. Cuba está sendo asfixiada pelo embargo econômico de décadas e que se tornou dramático com o fim do envio de petróleo por parte da Venezuela, depois da queda de Maduro.

Neutralizar a influência econômica chinesa na região, por sua vez, requer mais do que governos de direita subordinados a Washington. Exige investimentos massivos. Excetuando a exploração de minerais raros, estratégicos para setores de ponta da economia estadunidense e onde a entrada de capital tende a crescer em países como o Brasil, não parece haver interesse significativo em outros setores, além daqueles em que empresas norte-americanas já estão presentes. Nem estratégia com planejamento de longo prazo semelhante ao que pavimentou a entrada da China na região. Ao contrário, o lema defendido por Trump na campanha eleitoral – America First (Primeiro os Estados Unidos) – prioriza investimentos no próprio país e não favorece a diversificação nem o aumento de capital em escala necessária para desbancar a presença chinesa nos países da América Latina.

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