Segundo o presidente dos Estados Unidos, é inaceitável que o crime organizado tenha uma estrutura maior do que as forças de segurança de alguns desses países, devendo ser combatido com vigor. No entanto, o investimento na repressão armada ao crime organizado, que coloca lideranças de direita no mesmo campo e na mesma agenda subalterna a Washington, favorecendo ações militares conjuntas, foi questionado por especialistas da área de segurança.
Para eles, a proposta de derrotar carteis do crime organizado com o uso da força militar já se provou desastrosa, sendo um equívoco em relação à forma como as facções criminosas operam hoje. Elas não se concentram em um único território. Funcionam como redes transnacionais complexas, integradas a cadeias globais de comércio ilegal que conectam rotas de tráfico, sistema financeiro e tecnologias de comunicação. Desmontar esse sistema exige mais cooperação internacional em inteligência, integração de dados financeiros e logísticos, além de ações coordenadas para desestruturar as redes que alimentam o crime internacional.
Especula-se que a proposta de combater o crime organizado para justificar a presença militar estadunidense nos países da América do Sul e do Caribe é apenas uma cortina de fumaça para objetivos políticos de Washington na região.
Trump afirmou que a coalizão “trabalhará em conjunto para promover estratégias que impeçam a interferência estrangeira no nosso hemisfério”, em referência velada à China. É disso que se trata, assegurar a hegemonia dos Estados Unidos, cuja ausência na região favoreceu a entrada chinesa, através de investimentos em infraestrutura e da diversificação das relações comerciais. Trata-se também de fazer o cerco a governos de esquerda como o Brasil, a Colômbia, o México e Cuba, não convidados ao convescote em Doral, na Flórida.
A ameaça de intervenção deu certo para eliminar a influência da China no Panamá, o uso da força serviu para derrubar o presidente Maduro e alinhar os militares venezuelanos aos interesses de Washington. Nem sempre se usa a força. No Chile, grupos organizados utilizaram a inteligência artificial e o controle dos algoritmos para difundir fake News nas redes sociais com o objetivo de erodir a imagem pública do presidente de esquerda Gabriel Boric, ao mesmo tempo em que trabalharam para eleger o direitista Antônio Kast. Cuba está sendo asfixiada pelo embargo econômico de décadas e que se tornou dramático com o fim do envio de petróleo por parte da Venezuela, depois da queda de Maduro.
Neutralizar a influência econômica chinesa na região, por sua vez, requer mais do que governos de direita subordinados a Washington. Exige investimentos massivos. Excetuando a exploração de minerais raros, estratégicos para setores de ponta da economia estadunidense e onde a entrada de capital tende a crescer em países como o Brasil, não parece haver interesse significativo em outros setores, além daqueles em que empresas norte-americanas já estão presentes. Nem estratégia com planejamento de longo prazo semelhante ao que pavimentou a entrada da China na região. Ao contrário, o lema defendido por Trump na campanha eleitoral – America First (Primeiro os Estados Unidos) – prioriza investimentos no próprio país e não favorece a diversificação nem o aumento de capital em escala necessária para desbancar a presença chinesa nos países da América Latina.