Quinta-feira, 02 Abril 2026

A análise de Alex Sgreccia

Desdobramentos da Guerra no Oriente Médio: cresce o isolamento internacional dos EUA

No dia 28 de março, cerca de 7 milhões de pessoas saíram às ruas das principais cidades dos Estados Unidos da América para protestar contra as medidas autoritárias do governo Trump e contra a agressão militar ao Irã. O "impeachment" do presidente, com popularidade em queda acentuada, foi uma das principais palavras de ordem dos manifestantes. A desaprovação da guerra por parte de tradicionais países aliados, por outro lado, tem provocado o crescente isolamento dos Estados Unidos no cenário internacional, acentuando as tensões no interior da já abalada Organização do Tratado do Atlântico Norte – OTAN.

Países membros recusaram-se a participar da iniciativa que viola o direito internacional. Rejeitaram a parceria na aventura com o Estado criminoso de Israel, depois do genocídio cometido em Gaza. Espanha e França fecharam o espaço aéreo para aeronaves transportando material bélico para o exército israelense. A Itália proibiu o uso da base militar de Sigonella, na Sicília, para operações no Oriente Médio. Trump os acusou de covardes e ameaçou com a saída dos Estados Unidos da OTAN.

A convergência das vertentes de pressão, uma que isola o governo Trump no plano internacional e outra que eleva sua reprovação interna a inusitados 62%, tende a gerar uma crise de proporções preocupantes, minando suas bases de sustentação no ano em que as eleições de meio de mandato assumem caráter plebiscitário. Neste cenário, o presidente busca uma saída honrosa da guerra contra o Irã, sem ter dado uma explicação convincente dos motivos que o levaram a embarcar na canoa furada com Israel, sem ter avaliado com precisão a capacidade de resistência iraniana e sem dispor de qualquer estratégia ou objetivos claros a serem alcançados. Os Estados Unidos e Israel provocaram enorme destruição no território inimigo, eliminaram parte expressiva de sua liderança, rapidamente recomposta, mas sofreram reveses inesperados, situação que se torna cada vez mais embaraçosa e insustentável.

O Irã surpreendeu com a estratégia diante de uma guerra assimétrica. Não podendo competir com a força área inimiga, tem usado enxames de drones para confundir radares enquanto mísseis de médio alcance atingem alvos estratégicos em países do Golfo Pérsico, particularmente bases militares estadunidenses.  Demonstra que, em vez de segurança, elas oferecem risco. Conseguiu danificar refinarias, abater aviões caça, destruir aeronaves estacionadas em solo, danificar navios de guerra e petroleiros. Mísseis supersônicos furaram o bloqueio dos escudos de proteção de Israel, destruindo a infraestrutura e setores inteiros de cidades como Telavive, Dimona, Beit Shemesh e Haifa, deixando a população cada vez mais insegura. O forte controle de Israel sobre a mídia, no entanto, tem impedido a divulgação de imagens do território arrasado.

Teerã apostou no fechamento do estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% da produção mundial de petróleo, exercendo enorme impacto na economia mundial. Compras do produto têm sido pagas em outras moedas que não o dólar, minando os alicerces do sistema que transformou a moeda estadunidense em meio de troca universal e que financia a dívida dos Estados Unidos. Conta com a ação dos Houthis no Yemen para bloquear o estreito de Bab el-Mandeb, com consequências ruinosas para a economia global. Usa esses trunfos para defender interesses estratégicos e negociar o desfecho do conflito. Rejeitou a proposta de quinze pontos apresentada por Trump para um cessar fogo e fez uma contraproposta pouco palatável para Washington. Pode emergir do conflito como potência regional, redesenhando o mapa geopolítico no Oriente Médio e amealhando milhões de dólares por dia com o pedágio pago por petroleiros em passagem pelo estreito de Ormuz, dinheiro suficiente para reconstruir sua infraestrutura e fortalecer sua indústria bélica.

É tudo isso que Israel não quer. Pelo contrário, o objetivo de Netanyahu é aniquilar o Irã, principal obstáculo à implementação do projeto político expansionista conhecido como Grande Israel. As Colinas de Golan, antes pertencentes à Síria, foram tomadas na guerra de 1967 e formalmente anexadas em 1981. O governo Netanyahu retaliou o ataque do Hamas, em 2023, com uma ofensiva desproporcional e genocida, transformando Gaza em terra arrasada, sob seu controle. Avança novamente pelo Sul do Líbano, que pretende transformar em “área tampão”, destruindo vilarejos centenários e impedindo o retorno da população que habita a região há gerações. Tem patrocinado a expansão de colônias de judeus no território da Cisjordânia, faz vista grossa à violência usada pelos colonos para tomar terras dos palestinos. Mantém relações de boa vizinhança com outros países árabes, enquanto for conveniente.

Resta saber se Israel conseguirá manter a guerra contra o Irã sem o apoio incondicional dos Estados Unidos e na situação de enorme isolamento em que se encontra no cenário internacional. Internamente, além da crescente rejeição, o governo Nethanyahu passa a lidar com um exército desfalcado e à beira da exaustão com a sequência de guerras e com a ação militar acontecendo simultaneamente em vários espaços.

Trump promete um fim rápido para o conflito, com acordo ou sem acordo à vista. Sinaliza que pode deixar a guerra sem ter conseguido desobstruir Ormuz, repassando a tarefa para a diplomacia ou para os países que dependem do petróleo escoado pelo estreito. A decisão está sendo considerada incrivelmente irresponsável. O fechamento da rota foi consequência da desastrada agressão comandada por Netanyahu e pelo próprio Trump, que agora lava as mãos. Fez um discurso mentiroso à nação sobre os resultados da guerra, prometendo uma escalada nas próximas duas semanas para preparar a retirada. Resta ver como será a reação de Israel, na iminência de perder o apoio fundamental para atingir objetivos ainda não alcançados – destruir o potencial nuclear e bélico do Irã e provocar a queda do regime. A conferir os próximos movimentos.

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