A chamada BRICS Cross-Border Payments Initiative (BCBPI) parte justamente dessa lógica: preservar real, yuan, rupia e as demais moedas nacionais, mas criar mecanismos para que bancos e empresas possam liquidar transações diretamente entre elas, combinando redes de pagamentos instantâneos, bancos correspondentes e, progressivamente, moedas digitais de bancos centrais (CBDCs). Em agosto de 2026, o presidente do Banco Central da Índia confirmou que estão sendo discutidas tanto a integração dos sistemas de pagamentos rápidos quanto a interoperabilidade das CBDCs; na cúpula de Nova Délhi, em setembro, os líderes voltaram a apoiar liquidações em moedas locais e essa interoperabilidade.
A dificuldade está precisamente na engenharia institucional dessa rede. Não basta desenvolver uma plataforma tecnológica: é necessário definir como converter moedas com graus muito diferentes de liquidez e conversibilidade, quem fornece liquidez nos pares cambiais, como administrar risco de câmbio, quais ativos servem de garantia, como compatibilizar regras de prevenção à lavagem de dinheiro e controles de capital e, sobretudo, quem governa a infraestrutura.
É por isso que a solução mais pragmática tende a ser uma arquitetura em camadas, na qual cada banco central conserva o controle sobre sua moeda e seu sistema doméstico, enquanto protocolos comuns permitem que as redes se comuniquem e façam liquidações quase simultâneas. O problema político é tão importante quanto o tecnológico: Índia e outros membros não querem simplesmente substituir uma infraestrutura centrada nos Estados Unidos por outra dominada pela China; a resistência indiana ao mBridge, plataforma fortemente associada à infraestrutura chinesa, ilustra esse ponto.
Portanto, o processo está avançando, mas ainda se encontra muito mais próximo de uma rede complementar ao sistema do dólar do que de um sistema monetário alternativo plenamente constituído. O BRICS ampliado responde hoje por cerca de 28% do PIB mundial, o que lhe dá escala econômica suficiente para aumentar significativamente o comércio liquidado fora do dólar; isso pode reduzir custos, diminuir a exposição a sanções e ampliar a autonomia financeira dos participantes.
Mas substituir o dólar é outra questão: sua força não decorre apenas de ser uma moeda de pagamento, e sim da profundidade e liquidez dos mercados financeiros americanos e da enorme disponibilidade de ativos seguros denominados em dólares. O próprio diretor de Política Monetária do Banco Central brasileiro avaliou que os BRICS não dispõem de um estoque comparável de ativos financeiros capaz de deslocar o dólar no horizonte da próxima década.
O cenário mais plausível, assim, não é uma ruptura súbita, mas uma desdolarização parcial e funcional: um mundo em que o dólar continua central, porém deixa progressivamente de ser passagem obrigatória para uma parcela crescente do comércio entre grandes economias emergentes.