Sexta-feira, 23 Janeiro 2026

A análise de Alex Sgreccia

Acordo Mercosul-União Europeia: Entre o entusiasmo e os desafios

O acordo recém-assinado entre o Mercosul e a União Europeia, depois de 26 anos de negociação, despertou entusiasmo ao mesmo tempo que aponta desafios significativos. Pode mudar substancialmente as relações comerciais entre os dois blocos e impactar as relações de poder no tabuleiro geopolítico, num momento de tensão e crescentes disputas no cenário internacional. Visa eliminar barreiras comerciais, prover investimentos e criar um ambiente de comércio exterior mais justo, sustentável e transparente.

Os números impressionam. Dá origem a uma das maiores zonas de livre comércio do mundo, abrangendo cerca de 718 milhões de pessoas e economias que juntas formam um valor aproximado de 22 trilhões de dólares. Prevê que países dos dois blocos sejam isentos, pouco a pouco, de tarifas para mais de 90% dos produtos comercializados entre eles após um período de transição.

A previsão de crescimento da economia brasileira, sob o impacto do acordo, é significativa. O PIB brasileiro deve aumentar entre 0,34 e 1,5% até 2035-2040; o comércio do Brasil com o bloco europeu deve aumentar em R$ 94,2 bilhões no período; o acordo ampliará de 8% para 36% o acesso  do país ao comércio mundial.

Do lado europeu, houve resistência, especialmente dos agricultores franceses que reclamam   da “concorrência desleal” e dos riscos decorrentes de regulação ambiental mais frágil nos países do bloco comercial sul-americano. Na realidade, sentem-se ameaçados com a entrada de produtos agrícolas com os quais não conseguem competir, passando a depender do protecionismo estatal para sobreviver.

Apesar das perspectivas de crescimento econômico no médio e longo prazo, assegurado pela ampliação do mercado, representantes de setores industriais no Brasil reagiram ao acordo com otimismo cauteloso. Como aspectos positivos, apontam a eliminação de tarifas para mais de 5.000 produtos, a compra de máquinas e equipamentos europeus, fundamentais para a reestruturação da indústria brasileira e o aumento de sua competitividade. Setores agroindustriais (carne, café, laranja) poderão ter forte incremento nas exportações para a Europa.

Por oferecer maior segurança jurídica, o acordo poderá atrair investimentos e promover maior integração produtiva entre os dois blocos. Por outro lado, destacam desafios e riscos: a abertura gradual do mercado interno exigirá maior competitividade da indústria nacional, especialmente de setores de maior valor agregado; setores industriais poderão ficar mais vulneráveis à redução de tarifas para produtos europeus.

Para além de números promissores e preocupações gerais, existe uma questão de fundo envolvendo o acordo Mercosul e União Europeia. Trata-se do padrão de desenvolvimento que estamos buscando e no qual um acordo de tal envergadura poderá impactar significativamente o rumo. É o que nos aponta a análise do economista Paulo Gala: “A intuição central é simples: vamos exportar bens com baixo conteúdo de capital humano e importar bens com alto conteúdo de capital humano. Em outras palavras, exportaremos sobretudo produtos agrícolas e extrativos e importaremos manufaturas e serviços industriais sofisticados. Isso não é apenas uma diferença de ‘setores’; é uma diferença de densidade tecnológica, complexidade produtiva e capacidade de acumular conhecimento ao longo do tempo.”

Ele exemplifica: “Pense em turbinas, reatores nucleares, microchips, 5G, química fina, mecânica de precisão, equipamentos médicos, máquinas industriais, software embarcado. Para produzir isso, não basta ‘ter mão de obra’; é preciso cadeias longas de fornecedores, engenharia acumulada, padronização, metrologia, domínio de materiais, testes, certificações, P&D, e um ecossistema inteiro que aprende fazendo. São setores em que o conhecimento se acumula de forma cumulativa: quem produz hoje, produz melhor amanhã; e quem produz melhor amanhã, passa a inovar e dominar nichos.

Agora compare com café, açúcar, boi, algodão, minério de ferro, soja. Isso não significa que não exista técnica nessas atividades — existe, e muita. Mas o ponto é outro: a fronteira tecnológica e o núcleo do valor capturado globalmente não estão aí. A maior parte do ganho de renda, do poder de mercado e da captura de valor tende a ficar nos elos industrializados: máquinas, insumos especiais, genética proprietária, defensivos de última geração, logística sofisticada, trading, financeirização, marcas, certificações, tecnologia de processamento, e, principalmente, propriedade intelectual.”

Segundo o analista, este quadro nos coloca diante de duas possibilidades: “Aceitar que nosso papel na divisão internacional do trabalho é ser grande fornecedor de commodities, com algum processamento, bons serviços domésticos e ilhas de tecnologia aqui e ali, mas sem ambição industrial abrangente” ou “ persistir numa estratégia de transformação produtiva, aumentando complexidade, elevando produtividade, criando capacidades tecnológicas e construindo empresas e cadeias com poder de competir globalmente em segmentos de maior valor.” (Paulo Gala, Economia & Finanças, 10/01/2026).

É um desafio enorme para o Brasil, cuja indústria passou por longo período de crise, gerando um cenário de desindustrialização. A situação vem sendo superada no Governo Lula por uma nova política industrial, focada na transição para a economia de baixo carbono e numa estratégia que combina a reestruturação de regiões de industrialização antiga com o investimento em setores industriais com maior densidade tecnológica e processos inovadores de produção.

O processo de validação do acordo deveria se estender até o final de abril, não fosse a decisão tomada pela maioria dos parlamentares europeus de contestar a proposta no Tribunal de Justiça da União Europeia, gerando um quadro de incerteza.

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