Quarta-feira, 26 Agosto 2026

Abraço das Ilhas

Júlio Rendall: A cidade de Santa Maria – entre perder a sua identidade e hipotecar o seu futuro

Santa Maria não pode ser apenas um destino turístico; é refletir sobre a necessidade de preservar a sua identidade, a vida comunitária e a cultura local perante a transformação num grande centro turístico desordenado. Santa Maria, no passado, desempenhou um papel relativamente importante, no panorama político, social, cultural e económico da ilha do Sal, com reflexos significativos nas outras ilhas do arquipélago.

Se levarmos em conta o comércio da exploração salineira, que se desenvolve nesta ilha nos dois primeiros quartos do século XIX, onde pontificavam as famílias: os Martins, os Vera-Cruz, os Sousa Machado, os Abrantes. Esses, com negócios variados e exportações de grandes quantidades de sal, nomeadamente para a América do Sul e outros destinos, vemos o seu poder económico e político. Nessa altura, a Vila de Santa Maria prosperou e assistiu-se ao incremento de negócios, à consequente construção de casas requintadas e a uma vida social intensa.

A chamada rua Direita a Martins tinha prédios com dois pisos, amplos aposentos e a maioria tinha varandas interiores num estilo próprio da época. Ainda encontrei exemplares de serviços de mesa em prata com iniciais e brasão de famílias abastadas da Vila. Com a decadência da indústria salineira, a Vila perdeu um pouco do seu fulgor, mas manteve sempre a aura de centro político e social da ilha.

Com a entrada da Companhia Fomento de Cabo Verde na exploração das suas salinas nos anos vinte do século passado, mais precisamente a partir de 1920 e a instalação da Conserveira J. A. Nascimento, a vida económica e social da antiga Vila floresceu novamente. A Vila de Santa Maria vivia voltada para o mar e para as salinas, lugar de gente ordeira, respeitadora e respeitada.

Havia autoridade na Vila, mesmo com um ou dois polícias

O cabo chefe tinha bastante autoridade, o professor, o enfermeiro eram também autoridade. O gerente da fábrica de conservas era autoridade, o diretor da Companhia Fomento era autoridade, os mais velhos eram autoridades. O Administrador do Concelho, autoridade máxima, até era chamado para arbitrar jogos de futebol quando a rivalidade entre as equipas era superlativa e dava lugar a rixas.

Era uma Vila com tradições fortes onde as festas de Santa Maria tinham um ritual próprio envolvendo toda a comunidade, maioritariamente descendentes da sociedade escravocrata anteriormente existente naquela comunidade. Os traços arquitetónicos das casas eram respeitados, a orla marítima era preservada, o saneamento era responsabilidade de todos, o respeito pelo património fazia parte do dia a dia das pessoas.

A parte social era regida por valores como a amizade, o respeito, a camaradagem e a solidariedade. A parte central da antiga Vila, onde se situava a antiga Praça com o seu belo chafariz, era o lugar onde as pessoas se reuniam no fim do dia com as crianças e as mães, enquanto os homens se dirigiam ao edifício da União para uma cavaqueira e umas partidas de uril ou bisca.

Nos bancos situados no paredão que dava para o areal, os velhos pescadores contavam as suas venturas da pesca anterior e perspetivam a faina da madrugada seguinte, perscrutando o horizonte, a viração do vento e as fases da lua propícias ou não para uma boa pescaria. A Vila era pacata, apenas agitada com a chegada dos barcos de pesca, de algum navio das ilhas ou de um vapor vindo para carregar toneladas de sal para o estrangeiro.

Quase que não havia distúrbios na Vila e, conforme contam, a própria cadeia não tinha portas e os poucos presos davam-se ao luxo de ir dormir à casa com as suas amadas. Hoje, Santa Maria perdeu o seu encanto:  já não se fazem serenatas, o Bar Solar e a Loja de Zequim deram lugar a restaurantes, cafés, apinhados de nórdicos, saxões, gauleses, lusitanos, galegos, senegambianos, malianos e toda a casta de povos.

A perda da sua condição de centro do poder político, com a deslocação da Sede do Concelho para a Vila do Espargo em 1977, deu uma machadada no ego das suas gentes. As suas gentes foram pura e simplesmente, afastadas do centro nevrálgico de Santa Maria, vivem hoje nas ruas periféricas, pois a velha rua Direita a Martins, hoje, Pedonal Ildo Lobo, alberga apenas restaurantes, cafés, esplanadas, “porta sim, porta sim”.

Um mundo ilusório!

A Pedonal Ildo Lobo transporta as nossas gentes para outra realidade: os preços são todos inflacionados e a pouca atividade cultural ali desenvolvida não obedece a qualquer padrão e princípios genuinamente cabo-verdianos. Santa Maria transformou-se num centro turístico com apenas uma rua digna desse nome, pois nas outras artérias, o saneamento do meio é deficiente, e o seu plano urbanístico é desgarrado da realidade de outrora.

As casas ancestrais foram todas demolidas, dando lugar a prédios sem história. A orla marítima da cidade foi toda ocupada, pondo em causa a sustentabilidade ambiental da praia a curto e médio prazo. Os males já se fazem sentir, com conflitos entre os direitos dos cidadãos em usufruir dum bem público que são as praias e as concessões atribuídas aos hotéis que ditam regras a seu bel-prazer.

Temos a obrigação de defender Santa Maria e de preservar a sua história, ela não pode ser transformada num destino turístico sem passado, sem memória. Santa Maria só tem a ganhar se souber conviver de forma harmoniosa com o presente, sem esquecer o seu passado para poder projetar um futuro duradouro para todos.

Defendo a criação de um “City Tour” trabalhado entre os Operadores Turísticos e o Instituto do Turismo de Cabo Verde, valorizando a Cidade, as suas gentes e a sua história, identificando pontos que antes constituíam marcos do seu passado risonho. Precisamos resgatar figuras ilustres que ajudaram a construir este recanto à beira-mar.

Pessoas como o senador Augusto Vera-Cruz, o Empresário e Industrial Marcelo Leitão, o armador e industrial Augusto Diogo Abrantes, e outras figuras que sempre prestigiaram a Vila e que fazem parte da sua história, poderiam fazer parte do seu legado. Todos devem ser chamados a discutir esta temática, incluindo Igrejas e as diversas associações comunitárias.

Há uma necessidade urgente de se preservar a identidade, a vida comunitária e a cultura local.

Não podemos permitir que os males sociais como a droga, a prostituição, os negócios ilícitos e a especulação imobiliária destruam o nosso bem maior, a nossa cabo-verdianidade, a nossa identidade. Se perdermos a essência da nossa cultura, perdemos o turismo, pois o turista vem à procura do desconhecido, do genuíno, da autenticidade, da história de um povo para conhecer os nossos hábitos e costumes, a nossa cultura. Santa Maria precisa de cuidados, pois podemos estar a matar a galinha dos ovos de ouro.

 

Tags

Partilhar esta notícia

×